Na noite de 9 para 10 de Novembro de 1989 caiu o Muro de Berlim. A partir dai os antigos países pertencentes ao Pacto de Varsóvia e "satélites" da ex-URSS viram desmoronar os seus regimes, o mesmo acontecendo na terra mãe do Comunismo, em 1991. Previa-se, nesta sequência, o fim de um longo período em que o mundo tinha vivido em estado de "Guerra Fria", iniciando-se um novo período da história da Humanidade.
Mas eis que perante estes acontecimentos fortemente marcantes (para além da queda de ditaduras noutras partes do mundo), uma questão se coloca: ter-se-ia chegado ao fim da História, agora que a implantação de regimes democráticos num novo conjunto de estados
era uma efectiva realidade?
Por outro lado, estar-se-ia também perante o último tipo de homem? E se sim, como é que este se deveria enquadrar e caracterizar?
Mais: quais os contributos que o desenvolvimento da Ciência (e da Tecnologia) deram para a consolidação desta ideia de fim da História e do último homem?
Sobre tudo isto reflecte Francis Fukuyama no seu livro O fim da História e o último homem, publicação datada de 1992, mas com origem num artigo intitulado "O fim da história", escrito em 1989.
Neste texto defendia o autor que nos últimos anos "... tinha ocorrido por todo o mundo um consenso notável quanto à legitimidade da democracia liberal como sistema de governo, à medida que esta triunfava sobre ideologias rivais, como a monarquia hereditária, o fascismo e, mais recentemente, o comunismo. Mais do que isso, porém, eu defendia que a democracia liberal poderia constituir o "ponto terminal da evolução ideológica da humanidade" e a "forma final de governo humano" e, como tal, constituiria "o fim da história". Isto é, enquanto anteriores formas de governo eram caracterizadas por graves imperfeições e irracionalidades, que conduziram ao seu evental colapso, a democracia liberal estava comprovadamente livre dessas contradições internas fundamentais", não significando isto para o autor que estas mesmas democracias não "... estivessem livres de injustiças ou graves problemas sociais.". No entanto, estes problemas "...eram mais o produto de uma incompleta aplicação dos princípios gémeos da liberdade e da igualdade, em que a democracia moderna se fundamenta, do que defeitos intrínsecos dos próprios princípios", o que certamente não acontecia relativamente a outro tipo de regimes.
É, pois claramente visível, que estamos perante mais uma filosofia ou teoria da História, ou seja, o entendimento da História como um processo particular que abrange experiências e vivências de todos os homens em todos os lugares.
Certamente que tal teoria provocou e continua hoje a provocar reacções, em particular na área da esquerda afecta ou próxima ao Comunismo. Admitir o fim da História com a vitória dos regimes democráticos liberais com todas as desigualdades e injustiças neles existentes é alvo que custa(va) a conseguir.
A ideia geral é, pois esta: estaremos perante uma filosofia da História conclusiva ou estaremos perante uma necessidade irremediável de reforçar o fim do fim deste tipo de filosofias da História?
O desafio fica lançado para efeitos de reflexão, ainda mais num contexto em que o mundo se vê confrontado com a questão do Terrorismo (ou dos Terrorismos) crescente(s) a par de outras realidades tão espantosas quanto amedrontantes (dependendo do tipo de uso dado) como as relativas às evoluções tecnológicas.
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NOTA: A referida obra de Francis Fukuyama encontra-se publicada nas edições Gradiva (FUKUYAMA, Francis- O fim da história e o último homem. 2ª ed. Lisboa: Gradiva, 1999).
Publicado por sandra em agosto 14, 2003 03:07 PM