De acordo com Alexandre Herculano (1810-1877), na senda, aliás, do que se verificou com autores como Thierry, fortemente influenciados com o significado e resultados da Revolução Francesa (iniciada em 1789) e inseridos na corrente romântica liberal, a História é fruto não da acção de grandes homens, mas da sociedade, ou seja, dos homens socialmente organizados, em particular do Povo.
Diferentemente do que acontecerá com Oliveira Martins, Herculano valoriza no processo histórico a formação dos concelhos e a importância que tiveram na constituição e desenvolvimento do Reino de Portugal, assim como as potencialidades do povo para, em clima de liberdade se poder manifestar, caracterizando-se tal liberdade, sobretudo, pela autonomia do poder local (pelo Municipalismo e não pelo Centralismo Político), propiciadora da defesa da identidade.
No âmbito de um tipo de história diferente daquele valorizador dos chamados grandes homens, escreveu em Opúsculos, o seguinte:
"É uma daquelas falsidades históricas que nascem do curto pensar. Nunca um ou alguns homens puderam assim mudar nem a mínima das fórmulas sociais, em cujo número a arte, decerto, não é a última. São as gerações arrastadas e agitadas por ideias que nasceram e se derramaram insensivelmente que fizeram semelhantes transformações. Essas cabeças de escola são o verbo da ideia, são os intérpretes do género humano e- mais nada."
(Vol. V- "Cartas sobre a história de Portugal". Carta V.)
A propósito também do que considerou ser o atrofiamento da cultura nacional causada pela imposição (de carácter renascentista) das culturas grega e romana clássicas, escreve o seguinte em Elogio Histórico de Sebastião Xavier Botelho, Memórias do Conservatório (citado por Teófilo Braga em Garret e o Romantismo. Livraria Chardron: Porto, 1903, p. 18-20):
"As sociedades feudais e municipais, estas no seu crescer, aquelas na sua declinação, deram o último arranco aos pés da sociedade monárquica. Toda a vida anterior das nações do Ocidente desabou após elas. Entre nós, mudou tudo: socialismo, ciência, arte, carácter religioso. Compuseram-se então todos os aspectos da sociedade a exemplo da unidade monárquica: o senhorio feudal tornou-se dependência completa; o município, delegação; os parlamentos, letra morta. A crónica, essa forma tão viva, tão dramática, tão nacional da história, cedeu o campo aos Tucídides e Lívios modernos; o platonismo cristão e espiritual fugiu, combatendo, como os Partos, ante o aristotelismo argumentador e materialista, as artes plásticas seguiram de longe os destinos de suas irmãs de Itália, onde as iluminuras aéreas e incorrectas dos missais e horas desapareciam diante do pincel terreno e correcto de Rafael, e as catedrais misteriosas e simbólicas se desmoronavam ao altar do templo de S.Pedro... Todas as artes se confessavam vencidas, na sua imperfeição e rudeza sublimes, pelos monumentos da arte antiga. O próprio cristianismo se fez intolerante e sanguinário como o politeismo romano, o perseguidor dos mártires, - e a Inquisição restaurou o Pretório. Finalmente, a poesia nacional, balbuciante ainda, retraiu-se ante o fulgor da literatura latina. As instituições de Roma, a Roma dos imperadores, anularam as nossas instituições primitivas, e a poesia romana mudou o carácter da poesia moderna. A sociedade, reconstruindo-se em todas as suas partes, vasava-se no molde antigo, e a arte reproduzia o pensamento que guiava o século. Deixou de ser cristã e nacional para ser pagã e peregrina. Netos dos celtas, dos godos e dos árabes, esquecemo-nos de todas as tradições de avós para pedirmos às cinzas de um império, morto e estranho, até o génio da própria língua!".
É, pois notória, a consideração de uma evolução negativa na História e nas instituições em Portugal, situação que se pretendia alterar com o novo clima propiciado pela Revolução Liberal de 1820.
O que acrescenta o historiador a este respeito? Como o procura fazer e consubstanciar?
Pela importância de uma figura como a de Alexandre Herculano, assim como pelo que pretendeu acima de tudo representar com os seus escritos de carácter histórico, voltaremos a falar sobre si, assim como da corrente romântica na qual se integrava, enquadradora de uma forma específica de pensar e registar a História, logo, de entender os caminhos percorridos e a percorrer pela Humanidade.