agosto 16, 2003

COLLINGWOOD E A FILOSOFIA DA HISTÓRIA: registos de uma posição

Robin George Collingwood foi um historiador arqueólogo activo cujo período de vida se situou entre 1889 e 1943. De entre as obras escritas analisaremos e apresentaremos excertos da intitulada A ideia de história (publicação póstuma em 1946), na medida em que esta permite conhecer o pensamento do autor em torno do conceito de "Filosofia da História".
Em jeito de introdução referimos que o texto reivindica a História como disciplina autónoma, com métodos e categorias próprias, assumindo o historiador características específicas para a compreensão e conhecimento do seu objecto de estudo. Collingwood apresenta posição contrária àquela defendida pelos positivistas do século XIX, na medida em que entende que o papel do historiador não se podia comparar ao do cientista da natureza, uma vez que os acontecimentos históricos não podiam ser entendidos como os fenómenos naturais (acessíveis a partir do exterior), logo, serem possíveis de agrupar mediante leis universais. A História devia e tinha que ser liberta da tutela das ciências naturais.
Defende, assim, o fim da ideia positivista da História, avançando com aquela que entende o "pensamento" como conceito fundamental da investigação histórica, significando isto a imprescindibilidade de penetração no interior dos acontecimentos por forma a interpretar os pensamentos dos agentes históricos neles envolvidos. Neste sentido, a função do historiador é repensar esses pensamentos, significando isto uma construção pessoal da situação em que os agentes estudados se encontravam, assim como a forma como esta era encarada.
Directamente relacionado com tudo isto temos a forma de entender a denominada Filosofia da História. Na obra citada, diz a este propósito o autor:
"A filosofia é reflexiva. O espírito filosofante nunca pensa simplesmente acerca de um objecto, pensa também no seu próprio pensamento acerca desse objecto. A filosofia pode ser chamada assim, um pensamento de segundo grau, pensamento acerca do pensamento. (...)
Se este é o carácter genérico do pensamento filosófico, o que é que pretendo dizer quando qualifico o termo "filosofia" acrescentando-lhe "da história"? Em que sentido há uma filosofia especificamente da história diferente da filosofia em geral e da filosofia de qualquer outra coisa? (...) Temos então de perguntar por que é que a filosofia da história deve ser objecto de um estudo especial, em lugar de ser incluída numa teoria geral do conhecimento. (...) Assim o objecto da filosofia, tal como o desenvolvimento organizado e científico da autoconsciência, depende, muitas vezes, dos problemas específicos em que, num dado momento, os homens encontram dificuldades específicas. Olhar para os tópicos mais evidentes da filosofia dem determinado povo em determinado período da sua história, é encontrar um indício dos problemas específicos que exigem a esse povo a aplicação de todas as energias do seu espírito. (...) O pensamento histórico tem um objecto com particularidades próprias. O passado, consistindo em acontecimentos particulares no espaço e no tempo que já não se verificam, não pode ser apreendido pelo pensamento matemático porque este apreende objectos que não têm situação específica no espaço e no tempo, e é precisamente essa falta de situação espacio-temporal que os torna cognoscíveis. Nem pode ser apreendido o passado pelo pensamento teológico porque o objecto deste tipo de conhecimento é um objecto singular e infinito, e os acontecimentos históricos são finitos e plurais. Nem pelo conhecimento científico, porque as verdades que a ciência descobre são reconhecíveis como verdadeiras ao serem atingidas através da observação e da experimentação exemplificadas naquilo que realmente percebemos, tendo o passado desaparecido e não podendo as nossas ideias acerca dele serem nunca verificadas como verificamos as nossas hipóteses científicas. (...)
Era necessário, portanto, um inquérito especial, cujo objecto devia ser o estudo deste novo grupo de problemas- os problemas filosóficos criados pela existência duma investigação histórica organizada e sistematizada. Este novo inquérito podia invocar o título de filosofia da história (...)
São necessários dois estádios para a realização desse inquérito. Em primeiro lugar, a filosofia da história terá de ser tratada, sem dúvida, não de um compartimento estanque, pois tal não existe em filosofia, mas sim em condições relativamente isoladas, considerada como um estudo específico dum problema específico.
(...). O segundo estádio consistirá em realizar as conexões entre este novo ramo da filosofia e as velhas doutrinas tradicionais. Qualquer aditamento ao corpo de ideias filosóficas altera, razoavelmente, tudo o que nele já existia, tornando-se necessária, ao estabelecimento duma nova ciência filosófica, uma revisão de todas as velhas ciências."
(In: COLLINGWOOD, R.G- A ideia de história. 6ª ed. Lisboa: Editorial Presença, [1986], p. 8-13.


Publicado por sandra em agosto 16, 2003 12:08 PM
Comentários

fazer 1 texto mais chamativo.
as pessoas que vêm a este site ficam sem vontade de ler o que ca está exactamente por o texto não ser apelativo.

Afixado por: ana catarina em novembro 24, 2004 04:38 PM