agosto 18, 2003

EM TORNO DE SANTO AGOSTINHO

Apresentam-se algumas considerações formuladas por Santo Agostinho, Bispo de Hipona, relativas a um aspecto fundamental da História:

- O Tempo

"Atrevo-me a declarar sem receio de contestação, que, se nada sobreviesse, não haveria tempo futuro e, se agora nada existisse, não teríamos tempo presente".
(In: Confissões)

"Os corpos só se podem mover no tempo (...); é com o tempo que meço a duração desse movimento desde que ele começou até acabar".
(In: Confissões)

"O mundo não foi criado no tempo, mas com o tempo- pois, o que se faz no tempo, faz-se depois de certo tempo"
(In: De Civitate Dei)

"Não imaginaram os filósofos pagãos que podiam ou deviam resolver este problema senão introduzindo um circuito ou revolução dos tempos, afirmando que as coisas se iam reproduzindo e repetindo indefinidamente no mundo e que assim continuará a ser no futuro para todo o sempre".
(In: De Civitate Dei)

"...já no tempo se produz algo de novo que não mais tem fim. E por que não dizer o mesmo acerca do mundo? E por que não igualmente acerca do homem criado no mundo? É que, procedendo com uma doutrina sã e por um caminho recto, evitamos aqueles falsos circuitos e retornos, inventados por enganosos pensadores".
(In: De Civitate Dei)

"Desde que entramos neste corpo mortal, a morte nunca mais deixou de estar a vir (...) O tempo que se vive, é vida que se corta e cada dia que passa, é menos vida que nos fica. O tempo da nossa vida é caminho para a morte onde não está previsto um segundo de atraso (...). Se começarmos a morrer logo qur, em nós, começa a actuação da morte, deve dizer-se que começamos a morrer logo que começamos a viver (...). Consumida a vida, fica terminada a morte que se vinha realizando pouco a pouco. Por isso, o homem nunca está em vida: é mais um morto que um vivo- já que não pode estar simultaneamente morto e vivo".
(In: De Civitate Dei)

"Que é o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir, por palavras, o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido em nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos; compreendemos também o que nos dizem quando nos falam dele. Que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei".
(In: Confissões)

"É impróprio afirmar que os tempos são três: passado, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer: os tempos são três: o presente das coisas passadas (...), o presente das presentes (...) e o presente das futuras (...). Existem, pois, três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras".
(In: Confissões)

A propósito da ideia de "Tempo" construída pelos pensadores cristãos ("iniciais"), onde se integra Santo Agostinho, eis a síntese apresentada por Fernando Catroga, no seu livro Caminhos do fim da história:
"Com efeito, o cristianismo, ainda que no âmbito de uma história da salvação, ordenou as eras e as idades segundo uma lógica em que o passado surgia como preparação, o presente como revelação e o futuro como consumação (...) E é indiscutível que a história, enquanto teofania, pôs em cena uma certa racionalização do trajecto da "cidade dos homens". Daí, o seu cariz providencialista, cujo momento teórico maior se encontra em Santo Agostinho, embora pensadores como Eusébio de Cesareia o houvessem preparado. Posteriormente, Paulo Orósio e uma vasta galeria de continuadores do modelo, durante toda a Idade Média e os primórdios da modernidade, farão dele o Deus ex machina da aparente caoticidade dos acontecimentos históricos, conferindo um sentido religioso e providencialista ao transcurso do tempo (...)".
(In: CATROGA, Fernando- Caminhos do fim da história. Lisboa: Quarteto, 2003, p. 25).

Publicado por sandra em agosto 18, 2003 10:39 PM
Comentários

Tudo sobre o pensamento de Agostinho Sobre o Homem.

Afixado por: Beto em agosto 15, 2004 02:44 AM

EM TORNO DE SANTO AGOSTINHO
Apresentam-se algumas considerações formuladas por Santo Agostinho, Bispo de Hipona, relativas a um aspecto fundamental da História:

- O Tempo

"Atrevo-me a declarar sem receio de contestação, que, se nada sobreviesse, não haveria tempo futuro e, se agora nada existisse, não teríamos tempo presente".
(In: Confissões)

"Os corpos só se podem mover no tempo (...); é com o tempo que meço a duração desse movimento desde que ele começou até acabar".
(In: Confissões)

"O mundo não foi criado no tempo, mas com o tempo- pois, o que se faz no tempo, faz-se depois de certo tempo"
(In: De Civitate Dei)

"Não imaginaram os filósofos pagãos que podiam ou deviam resolver este problema senão introduzindo um circuito ou revolução dos tempos, afirmando que as coisas se iam reproduzindo e repetindo indefinidamente no mundo e que assim continuará a ser no futuro para todo o sempre".
(In: De Civitate Dei)

"...já no tempo se produz algo de novo que não mais tem fim. E por que não dizer o mesmo acerca do mundo? E por que não igualmente acerca do homem criado no mundo? É que, procedendo com uma doutrina sã e por um caminho recto, evitamos aqueles falsos circuitos e retornos, inventados por enganosos pensadores".
(In: De Civitate Dei)

"Desde que entramos neste corpo mortal, a morte nunca mais deixou de estar a vir (...) O tempo que se vive, é vida que se corta e cada dia que passa, é menos vida que nos fica. O tempo da nossa vida é caminho para a morte onde não está previsto um segundo de atraso (...). Se começarmos a morrer logo qur, em nós, começa a actuação da morte, deve dizer-se que começamos a morrer logo que começamos a viver (...). Consumida a vida, fica terminada a morte que se vinha realizando pouco a pouco. Por isso, o homem nunca está em vida: é mais um morto que um vivo- já que não pode estar simultaneamente morto e vivo".
(In: De Civitate Dei)

"Que é o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir, por palavras, o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido em nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos; compreendemos também o que nos dizem quando nos falam dele. Que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei".
(In: Confissões)

"É impróprio afirmar que os tempos são três: passado, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer: os tempos são três: o presente das coisas passadas (...), o presente das presentes (...) e o presente das futuras (...). Existem, pois, três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras".
(In: Confissões)

A propósito da ideia de "Tempo" construída pelos pensadores cristãos ("iniciais"), onde se integra Santo Agostinho, eis a síntese apresentada por Fernando Catroga, no seu livro Caminhos do fim da história:
"Com efeito, o cristianismo, ainda que no âmbito de uma história da salvação, ordenou as eras e as idades segundo uma lógica em que o passado surgia como preparação, o presente como revelação e o futuro como consumação (...) E é indiscutível que a história, enquanto teofania, pôs em cena uma certa racionalização do trajecto da "cidade dos homens". Daí, o seu cariz providencialista, cujo momento teórico maior se encontra em Santo Agostinho, embora pensadores como Eusébio de Cesareia o houvessem preparado. Posteriormente, Paulo Orósio e uma vasta galeria de continuadores do modelo, durante toda a Idade Média e os primórdios da modernidade, farão dele o Deus ex machina da aparente caoticidade dos acontecimentos históricos, conferindo um sentido religioso e providencialista ao transcurso do tempo (...)".
(In: CATROGA, Fernando- Caminhos do fim da história. Lisboa: Quarteto, 2003, p. 25).

Afixado por: maicon em setembro 9, 2004 10:18 PM

EM TORNO DE SANTO AGOSTINHO
Apresentam-se algumas considerações formuladas por Santo Agostinho, Bispo de Hipona, relativas a um aspecto fundamental da História:

- O Tempo

"Atrevo-me a declarar sem receio de contestação, que, se nada sobreviesse, não haveria tempo futuro e, se agora nada existisse, não teríamos tempo presente".
(In: Confissões)

"Os corpos só se podem mover no tempo (...); é com o tempo que meço a duração desse movimento desde que ele começou até acabar".
(In: Confissões)

"O mundo não foi criado no tempo, mas com o tempo- pois, o que se faz no tempo, faz-se depois de certo tempo"
(In: De Civitate Dei)

"Não imaginaram os filósofos pagãos que podiam ou deviam resolver este problema senão introduzindo um circuito ou revolução dos tempos, afirmando que as coisas se iam reproduzindo e repetindo indefinidamente no mundo e que assim continuará a ser no futuro para todo o sempre".
(In: De Civitate Dei)

"...já no tempo se produz algo de novo que não mais tem fim. E por que não dizer o mesmo acerca do mundo? E por que não igualmente acerca do homem criado no mundo? É que, procedendo com uma doutrina sã e por um caminho recto, evitamos aqueles falsos circuitos e retornos, inventados por enganosos pensadores".
(In: De Civitate Dei)

"Desde que entramos neste corpo mortal, a morte nunca mais deixou de estar a vir (...) O tempo que se vive, é vida que se corta e cada dia que passa, é menos vida que nos fica. O tempo da nossa vida é caminho para a morte onde não está previsto um segundo de atraso (...). Se começarmos a morrer logo qur, em nós, começa a actuação da morte, deve dizer-se que começamos a morrer logo que começamos a viver (...). Consumida a vida, fica terminada a morte que se vinha realizando pouco a pouco. Por isso, o homem nunca está em vida: é mais um morto que um vivo- já que não pode estar simultaneamente morto e vivo".
(In: De Civitate Dei)

"Que é o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir, por palavras, o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido em nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos; compreendemos também o que nos dizem quando nos falam dele. Que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei".
(In: Confissões)

"É impróprio afirmar que os tempos são três: passado, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer: os tempos são três: o presente das coisas passadas (...), o presente das presentes (...) e o presente das futuras (...). Existem, pois, três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras".
(In: Confissões)

A propósito da ideia de "Tempo" construída pelos pensadores cristãos ("iniciais"), onde se integra Santo Agostinho, eis a síntese apresentada por Fernando Catroga, no seu livro Caminhos do fim da história:
"Com efeito, o cristianismo, ainda que no âmbito de uma história da salvação, ordenou as eras e as idades segundo uma lógica em que o passado surgia como preparação, o presente como revelação e o futuro como consumação (...) E é indiscutível que a história, enquanto teofania, pôs em cena uma certa racionalização do trajecto da "cidade dos homens". Daí, o seu cariz providencialista, cujo momento teórico maior se encontra em Santo Agostinho, embora pensadores como Eusébio de Cesareia o houvessem preparado. Posteriormente, Paulo Orósio e uma vasta galeria de continuadores do modelo, durante toda a Idade Média e os primórdios da modernidade, farão dele o Deus ex machina da aparente caoticidade dos acontecimentos históricos, conferindo um sentido religioso e providencialista ao transcurso do tempo (...)".
(In: CATROGA, Fernando- Caminhos do fim da história. Lisboa: Quarteto, 2003, p. 25).

Afixado por: maicon em setembro 9, 2004 10:21 PM