Na introdução ao capítulo II da Primeira Parte do seu livro O ano mil, o historiador francês Georges Duby escreve o seguinte:
"Para o cristianismo, a História possui uma orientação. O mundo tem uma idade. Foi criado por Deus numa certa época. Então ele escolheu para si um povo cuja marcha guia. Num certo ano, num dia certo, tornou-se Homem entre os homens. Alguns textos, os da Sagrada Escritura, permitem o cálculo das datas, a da criação, a da encarnação, logo o discernimento dos ritmos da História. Estes mesmos tempos- os que utiliza Abbon-, os Evangelhos, o Apocalipse anunciam que um dia virá o fim do mundo. Ver-se-á surgir o Anticristo que seduzirá os povos da terra. Depois o céu abrir-se-á para o regresso do Cristo em glória, vindo julgar os vivos e os mortos. No Reino, na Jerusalém Celeste terminará a longa caminhada do povo de Deus. Convém estar-se preparado para enfrentar o dia da cólera. Os monges dão o exemplo: cobriram-se com as vestes da abstinência e postaram-se na vanguarda da marcha colectiva. O seu sacrifício só tem sentido em função da espera. Mantêm-na. Exortam cada um a prescrutar os preliminares da Parúsia."
(In: DUBY, Georges- O ano mil. Lisboa: Edições 70, s.d, p. 37).
De facto, a problemática levantada em torno do ano mil após o nascimento de Cristo foi uma realidade entre os pensadores cristãos medievais. As repercussões em termos de mentalidades e comportamentos foram enormes. Na medida em que o conhecimento de tal problemática permite um enriquecimento da compreensão do tema global "Cristianismo e História", registamos o facto de nos encontrarmos a preparar um post onde o assunto será tratado.
Uma vez que a abordagem a fazer será necessáriamente de carácter introdutório, procuraremos fornecer pistas para um estudo mais aprofundado por parte de quem, pelo tema, se interessar.