agosto 22, 2003

O APOCALIPSE DE JOÃO E O SEU CONTRIBUTO PARA AS CONCEPÇÕES MILENARISTAS DA HISTÓRIA

Surgindo como o autor do último livro da Bíblia, João apresenta-se como alguém que sofre as consequências das perseguições efectuadas aos cristãos pelos romanos, encontrando-se por isso exilado na ilha de Patmos, situada no mar Egeu.
Dirige o Apocalipse às sete igrejas da Ásia Menor, ficando estas situadas na actual Turquia.
"Apocalipse" significa revelação e revelação é o acto de tirar o véu. Assim, o autor tem como objectivo pôr a descoberto o plano de Deus em pleno ambiente de perseguições. À aflição das comunidades cristãs, que se questionavam sobre a duração dos actos que sobre si recaiam, o Apocalipse respondia que o tempo da libertação estava próximo. Deus iria mudar a situação, na medida em que só ele e não o Imperador, era senhor da História.
João apresenta a sua mensagem em forma de apocalipse, maneira muito própria de anunciar a Boa Nova em épocas de perseguições. Qualquer apocalipse caracteriza-se como sendo composto por imagens relativas a sonhos e visões, carregados de símbolos e cor que necessitam, para o entendimento da mensagem, ser decifrados.
A história do passado é vista numa perspectiva de profecia e a do presente, imbuída de dificuldades, recebe a luz da profecia do passado em função da libertação futura e próxima. Deus entregou o seu poder a Jesus e este levará o seu povo à vitória final.
O Apocalipse tem, pois, como fim, incutir confiança aos cristãos em tempo de perseguição. No entanto, e indo para além do seu tempo, teve reflexos poderosíssimos em tempos posteriores, influenciando profundamente a religiosidade popular medieval, mas também indivíduos pertencentes à Igreja e outros que se dedicavam ao registo de factos e acontecimentos, através de crónicas, anais, entre outros. Importa aqui registar, para que fique claro, que à medida que a Igreja se foi organizando, as autoridades eclesiásticas empenharam-se em reduzir o milenarismo a uma expressão simbólica, tendo adoptado como seu representante Santo Agostinho (354-430), na medida em que a doutrina deste sobre a matéria foi transformada em doutrina oficial.
No entanto, apesar dos esforços da Igreja e da teoria agostiniana, a continuidade das especulações sobre o caminho da História para o "fim dos tempos", foi um constatação. Os anos de 1000, 1033, 1186, 1229, 1250, 1260, 1290, 1300, 1310, 1325, 1335, 1345, 1360, 1367, 1375, 1348, 1360, 1367, 1375, 1378, 1387, 1395, 1396, 1400, 1417, 1429 e 1490 foram anunciados como sendo os da concretização do fim do mundo. Sendo que a eles coincidem situações como fomes, pestes, inundações ou outros fenómenos tidos como sobrenaturais, caso de eclipses ou cometas, então percebe-se que tudo isto era interpretado como sinais apocalípticos.
Antes de avançarmos com mais com conjunto de registos atentemos, então, em alguns excertos do Apocalipse:

"Introdução
1. Este livro contém a revelação que Jesus Cristo recebeu de Deus, para a dar a conhecer àqueles que o seguem. Trata-se de coisas que hão-de acontecer brevemente e que Cristo deu a conhecer ao seu discípulo João, por um anjo que lhe enviou.
João é testemunha daquilo que Deus disse e que Jesus Cristo confirmou. Foi isto que ele viu. Feliz daquele que lê este livro, e felizes os que ouvem estas palavras proféticas e as guardam no seu coração. Pois tudo há-de acontecer em breve.

(...)
A grande prostituta e a fera [corresponde à destruição da cidade de Roma- a Grande Prostituta-]
Aproximou-se depois um dos sete anjos que tinham as sete taças e falou-me assim: "Vem cá! Vou mostrar-te a sentença de condenação da grande prostituta que vive junto das águas abundantes. Os reis da terra cometeram pecado com ela e os habitantes da terra embriagaram-se com o vinho da sua imortalidade. (...)
Depois o anjo continuou a explicar-me: "As águas que viste, onde vive a prostituta, são povos, multidões, nações e línguas. Os dez chifres e a outra fera que viste vão odiar a prostituta. Vão despojá-la de tudo e deixá-la nua. Vão comer-lhe as carnes e queimá-la no fogo. Foi Deus quem lhes meteu isto na cabeça, para assim realizarem o seu plano. (...)
A queda da grande cidade
Depois disto, vi outro anjo que descia do céu, com grande poder. E o seu esplendor iluminou a terra. Gritou com voz forte:
A grande Babilónia caiu por terra!
Tornou-se habitação dos demónios, refúgio de todos os espíritos maus, e de todas as aves selvagens e repelentes.
É que ela embriagou todas as nações com o vinho da sua imoralidade desenfreada.
Os reis da terra cometeram imoralidades com ela,
e os comerciantes da terra
tornaram-se ricos com o seu luxo desmedido.
(...)
As bodas do Cordeiro [=Jesus]
E do trono saiu uma voz que dizia.
"Louvem o nosso Deus
todos os que o servem,
todos os seus fiéis,
pequenos e grandes!"
Depois ouvi como que a voz duma grande multidão semelhante ao ruído duma grande cascata e de fortes trovões que dizia:
"Aleluia!
Quem reina é o Senhor,
o nosso Deus, todo-poderoso!
Alegremo-nos, regozijemo-nos
e dêmos-lhe glória.
Chegou o tempo das bodas do
Cordeiro
A sua noiva já se preparou.
Foi-lhe dado um vestido de linho
fino e resplandecente."
(...)
Os mil anos
A seguir vi um anjo que descia do céu e na sua mão tinha a chave do abismo e uma grande corrente. Agarrou o dragão, a antiga serpente, que é o Diabo ou Satanás, e prendeu-o por mil anos. Lançou-o pelo abismo, fechou a porta á chave e selou-a para que não enganasse mais as nações, até que se cumpram os mil anos. Depois deste período, deve ser solto durante algum tempo.
Vi também alguns tronos. Os que se sentaram neles receberam o poder de julgar. Vi ainda as almas daqueles a quem tinham cortado a cabeça por terem dado testemunho de Jesus e proclamado a mensagem de Deus. São os que não adoraram a fera, nem a sua estátua, nem trouxeram na fronte ou na mão a sua marca. Estes vivem novamente com Jesus e reinam com ele durante mil anos. Os outros mortos não voltaram à vida a não ser depois dos mil anos. Esta é a primeira ressureição. Ditosos e santos os que tomam parte na primeira ressureição. Sobre eles a segunda morte não tem qualquer poder. Eles serão sacerdotes de Deus e de Cristo e hão-de reinar com ele durante mil anos.

Derrota de Satanás
Passados mil anos, Satanás será solto da prisão. (...)
Juizo final
(...)
A morte e o abismo foram lançados no lago do fogo. Este lago de fogo é a segunda morte. E quem não tinha o seu nome escrito no livro da vida foi lançado no lago do fogo.
Novos céus e nova terra

Vi, então, um novo céu e uma nova terra. O primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido e o mar desapareceu.
E vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade Santa, a nova Jerusalém.
(...)
E o que estava sentado no trono disse:
"Agora faço tudo de novo" (...) E disse-me ainda: "É um facto. Eu sou o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim. (...)

A nova Jerusalém

(...)
A cidade não tinha qualquer templo. O Senhor Deus todo-poderoso e o Cordeiro é que são o seu templo. (...) As nações hão-de caminhar à luz daquela cidade. Os reis da terra hão-de levar-lhe as suas riquezas (...) E na cidade,estará o trono de Deus e do Cordeiro, e os seus servos hão-de adorá-lo (...). O Senhor Deus será a sua luz e hão-de reinar para todo o sempre. (...)".

Para além do Apocalipse existiram outros 4 textos que contribuiram igualmente para a difusão das ideias milenaristas. Foram eles os apócalipses apócrifos de:

- Baruc: relacionava a vinda de Cristo a uma fartura nunca vista, ao termo das doenças e à instalação da paz;

- Edras: descrevia as várias catástrofes que anunciariam o fim dos tempos, até que o Messias retornaria revelando a Jerusalém Celeste e o Paraíso;

- Henoc: afirmava que os seriam recompensados com paz, fartura e justiça.

Temos ainda os Oráculos Sibilinos, um conjunto de textos gregos escritos entre os séculos II a.c e IV d.c, profetizando a instalação de uma era de abundância e de justiça, cujo governo seria levado a cabo pelo denominado Último Imperador do Mundo.

Publicado por sandra em agosto 22, 2003 04:50 PM
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Afixado por: david em novembro 11, 2003 08:04 PM