Na sequência do que temos vindo a escrever sobre a existência de leis em História, a ideia de progresso e os posicionamentos que tal significa perante o processo histórico por parte dos seus defensores, deixamos aqui o excerto de uma intervenção proferida por Karl Popper numa palestra dada na Universidade de Eichstatt, em Maio de 1991, intitulada "Contra a interpretação cínica da história", onde o filósofo clarifica aquela que é a sua posição face a um mundo e a um tempo passado, presente e futuro:
" Resumirei do seguinte modo a faceta positiva do meu optimismo. Vivemos num mundo simples e maravilhoso e no Ocidente criámos o melhor sistema social que jamais existiu. Estamos constantemente a tentar melhorá-lo, a reformá-lo- o que está longe de ser fácil. Muitas reformas que parecem promissoras acabam por revelar-se erradas. Pois é de importância crucial entender que as consequências dos nossos actos sociais e políticos são muitas vezes diferentes do que pretendíamos e fomos capazes de prever. Não obstante, conseguimos muito mais do que aquilo que muitos de nós (entre os quais me incluo) alguma vez esperámos.
A ideologia dominante, que considera que vivemos num mundo moralmente pérfido, é uma mentira descarada. (...) Repito: não sou um optimista no que respeita ao futuro. Pois o futuro está em aberto. Não existe qualquer lei histórica do progresso. Não sabemos como será o amanhã. Existem biliões de possibilidades, boas e más, que ninguém é capaz de prever. Rejeito a profética definição de objectivos das três interpretações da história e defendo que, por razões morais, não devemos substituí-las por coisa alguma. O simples facto de extrapolar da história é errado- por exemplo a partir das tendências do presente o que irá acontecer amanhã. Considerar a história uma corrente previsível, pelo menos em parte, é construir uma teoria a partir de uma imagem ou de uma metáfora."
Face a isto e para Popper:
"O único procedimento correcto consiste em considerar o passado como sendo completamente diferente do futuro. Devemos julgar os factos passados de um ponto de vista histórico e moral, de molde a aprender o que é possível e o que está moralmente correcto. Não deveríamos de modo algum deduzir tendências e caminhos a partir do passado e fazer previsões sobre o futuro."
Assim, e no que respeita à sua posição optimista quanto ao presente:
"...o que o meu optimismo em relação ao presente pode oferecer para o futuro é esperança. Pode dar-nos esperança e incentivo, porque conseguimos fazer muitas coisas melhor e um êxito semelhante não é impossível no futuro. (...)
O futuro está em aberto e temos a responsabilidade de fazer o nosso melhor para o tornar ainda melhor do que o presente. Mas esta responsabilidade pressupõe liberdade. (...)
(POPPER, Karl- "Contra a interpretação cínica da história". In: POPPER, Karl- A vida é aprendizagem. Lisboa: Edições 70, 2001, p. 150-152).