Ortega e Gasset (1883-1955) é um daqueles filósofos que aquando da entrada no século XX, valoriza o concreto individual e circunstancial da vida, entrando na linha de Kierkegaard, Nietzsche, Bergson e dos Existencialistas, em geral.
A sua concepção da História encontra-se expressa em vários trabalhos, destacando-se História como Sistema, datada de 1936 e Uma interpretação da história universal, publicada póstumamente.
Apresentam-se como sendo as principais ideias nestas obras, as seguintes:
1. A realidade primeira e radical é a vida.
2. A vida humana é tempo e, por isso, história.
3. Eu sou a minha circunstância.
4. Viver é conviver.
5. A razão não é universal e absoluta, antes histórica e vital.
6. A História como ciência permite a previsão do futuro.
Por outro lado, na obra intitulada A rebelião das massas (cuja primeira edição surgiu em 1930), Ortega e Gasset tece um conjunto de considerações relativas à relação entre o Homem e a Civilização, culminando na ideia da incapacidade daquele em tomar as medidas e caminhos mais correctos, traduzindo-se isso, no início do século XX, nas respostas ideológicas e políticas encontradas com o "bolchevismo" e como o "fascismo". Diz, pois, a este propósito, o seguinte:
"A civilização , quanto mais avança, mais se torna complexa e mais difícil. Os problemas que hoje levanta são mais do que intrincados. Cada vez é menor o número de pessoas cuja mente está à altura desses problemas. O pós-guerra ofereceu-nos um exemplo bem claro disso. A reconstituição da Europa- como se pode ver- é um assunto demasiado algébrico, e o europeu vulgar revela-se inferior a tão subtil empreendimento. Não é que faltem meios para a solução. Faltam cabeças. (...)
Este desequilíbrio entre a subtileza complicada dos problemas e a das mentes será cada vez maior se não o solucionarmos, e constitui a mais elementar tragédia da civilização. (...)
Mas agora é o homem que fracassa por não poder seguir emparelhado com o progresso da sua mesma civilização. (...)
Civilização avançada é exactamente a mesma coisa que problemas árduos. Daí que, quanto maior for o progresso, mais em perigo está. A vida é cada vez melhor; mas, bem entendido, cada vez mais complicada. É claro que ao complicarem-se os problemas também se vão aperfeiçoando os meios para resolvê-los. Mas é necessário que cada nova geração se apodere desses meios adiantados."
Neste contexto, e para que tal propósito seja conseguido pelo Homem, Ortega e Gasset valoriza aquele que é o conhecimento da História. Se este existisse por parte dos indivíduos, nomeadamente dos governantes, a construção do futuro seria certamente melhor pela capacidade acrescida de não se cometerem erros verificados no passado. Vejamos, então:
"Entre estes [os meios avançados]- para concretizar um pouco- há um lapalicianamente unido ao avanço de uma civilização, que é ter muito passado atrás de si, muita experiência; em suma: história. O saber histórico é uma técnica de primeira ordem para conservar e continuar uma civilização antigas. Não porque dê soluções positivas ao novo cariz dos conflitos vitais- a vida é sempre diferente do que foi-, mas porque evita cometer os erros ingénuos de outros tempos. (...) Pois eu creio que é esta a situação da Europa. As pessoas mais "cultas" de hoje padecem de uma ignorância histórica incrível. (...) Por isso são bolchevismo e fascismo, os dois intentos "novos" de política que se estão a fazer na Europa e seus arredores, dois claros exemplos de regressão substancial. (...)".
Sendo que o que está em causa é a capacidade do Homem conceber e aplicar determinado tipo de ideologia, política ou medidas, no tempo certo e em versões correctas, o conhecimento do que tem sido o processo histórico é absolutamente fundamental. Se tal não se verificar, por exemplo, "...bolchevismo e fascismo- são duas pseudo-alvoradas; não trazem a manhã de amanhã, mas a de um dia arcaico, já usado uma ou muitas vezes; são primitivismo". E assim, com toda a certeza, a Civilização não avançará.
No caso específico da Europa, pós 1ª Guerra Mundial, esta "... não tem remissão se o seu destino não for posto nas mãos de pessoas verdadeiramente "contemporâneas" que sintam palpitar debaixo delas todo o subsolo histórico, que conheçam a altitude presente da vida e repugnem todo o gesto arcaico e silvestre. Precisamos da história íntegra para ver se logramos escapar dela, não recair nela".
Evidentemente que todas estas afirmações, continuam a aplicar-se aos/nos dias de hoje...
(Excertos extraidos de: ORTEGA Y GASSET- A rebelião das massas. Lisboa: Relógio d'Água, s.d, p. 97-102).
Achei super legal.Gostaria de ficar sabendo mais poderiam me retornar com mais infomaçoes???????Sem mais Camila.