George Steiner (1929- ), actualmente professor de Literatura Comparada na Universidade de Oxford e de Poesia em Harvard, no ido ano de 1974 participou numa série emissões de rádio, agora passadas para livro e traduzidas em Portugal pela editora Relógio D' Água. Intitulada a publicação como Nostalgia do absoluto, nela é abordada (através de cinco textos resultantes de cinco emissões) a problemática da decadência do papel desempenhado pelos sistemas religiosos formais no âmbito da sociedade ocidental, contrapondo o autor aquelas que entende serem as novas mitologias que procuram suprir esse vazio então criado.
Logo no 1º texto, intitulado "Os messias seculares", George Steiner apresenta a sua concepção do Marxismo (e por isso, também, do Materialismo Histórico) considerando-o, inequivocamente, como uma forma de mitologia explicativa da realidade (passada, presente e futura).
Por entendermos a importância da divulgação desta opinião, deixamos aqui um excerto, considerado como mais ilucidativo:
"(...) A estrutura mitológica do marxismo, a que começarei por me didicar nesta primeira conferência, é não apenas abertamente dramática, mas também representativa da grande corrente europeia de pensamento e sensibilidade a que chamamos romantismo. (...) o marxismo pode ser expresso na forma de um épico histórico. Narra o avanço da humanidade desde a escravidão até ao futuro reino da justiça perfeita. Tal como muita da arte, música e literatura românticas, o marxismo põe a doutrina teológica da queda do homem, do pecado original e da redenção final em termos históricos e sociais. (...)
Contudo, não podem existir dúvidas a respeito do carácter messiânico e visionário daquilo que tem para dizer acerca do futuro. Apesar de não satisfazer a nossa ardente curiosidade a respeito da catástrofe original, vontade não lhe falta de nos contar tudo sobre o dia depois de amanhã, sobre o definhamento do Estado, e sobre a ditosa existência da humanidade num mundo sem classes, sem opressão económica, sem pobreza e sem guerra. (...)
Pessoalmente, devo exprimir a crença (...), devo exprimir a convicção de que tanto a explicação marxista da condição humana como a sua promessa relativa ao nosso estado futuro se mostraram ilusórias. A análise marxista da história revelou-se unilateral e muitas vezes absolutamente ao arrepio da evidência. (...)
Mas não nos iludamos quanto à força trágica e generalizada deste falhanço, caso realmente o seja. O que estava em jogo não era a mera crítica técnica de certas instituições económicas. Não foi por questões teóricas de investimento, divisão de trabalho ou ciclos comerciais que gerações de homens e mulheres lutaram, morreram e mataram outros. A sua visão, promessa, e apelo à total dedicação e renovação do homem foram absolutamente messiânicas, religiosas, teológicas. Ou, para usarmos o título de um livro muito apreciado, foi "um Deus falhado".
(STEINER, George- Nostalgia do absoluto. Lisboa: Relógio D' Água, 2003, p. 16-22).
Publicado por sandra em setembro 1, 2003 06:36 PMMais um titulo para a lista "de compras".... assim não há carteira que resista ;)