setembro 02, 2003

POSICIONAMENTOS FACE À HISTÓRIA: o século XX para Francis Fukuyama

Tendo sido já por nós abordado em post editado no passado mês de Agosto, Francis Fukuyama é agora retomado, desta vez, para registo da análise que faz do século passado, assim como da posição que relativamente a este assume, objectivando-se igualmente uma melhor percepção de como essa posição (que é evolutiva, não se mantendo idêntica para a totalidade dos 100 anos em questão) se vai relacionar com aquele que é o caminho em direcção ao fim da História preconizado e defendido. Outro aspecto de fundamental importância é a abordagem relativa à evolução (ou não) da moral do/no Homem, aliada esta ao decorrer do processo histórico, acrescentando-se igualmente o reconhecimento de problemas de ordem intelectual.
Face à análise e apreciação feitas do percurso histórico, Fukuyama acaba por questionar a tão instalada ideia de pessimismo relativamente ao século XX (ou estado a que este habituou), pessimismo este que acabaria por se estender às evoluções decorrentes nos tempos futuros, diluindo-se e confundindo-se com o próprio fluir da História.
As ideias do autor são recolhidas da sua obra O fim da história e o último homem, também ela alvo de atenção anterior.
Assim, e para Francis Fukuyama:

"O século XX, pode-se dizê-lo, fez de todos nós profundos pessimistas históricos. (...)
O pessimismo do século XX contrasta nitidamente com o optimismo do século anterior. (...) O extremo pessimismo do nosso próprio século é, pelo menos em parte, devido à crueldade com que estas expectativas iniciais fossem esmagadas. A primeira guerra mundial foi um acontecimento crítico, que minou a auto-confiança da Europa. A guerra derrubou, claro, a antiga ordem política representada pelas monarquias alemã, austríaca e russa, mas o seu mais profundo impacte foi de ordem psicológica. (...) As virtudes da lealdade, do trabalho árduo, da perseverança e do patriotismo foram aplicadas na chacina sistemática e inútil de outros homens, desacreditando, deste modo, todo o mundo burguês que havia criado estes valores. (...)
Como se verificaria, a primeira guerra mundial foi apenas um aperitivo para novas formas de malignidade que surgiriam, em breve, no futuro. Se a ciência moderna tornou possível o fabrico de armas com uma capacidade de destruição nunca vista, (...), a política moderna criou um estado de poder sem precedentes, para o qual estava ainda por inventar uma palavra nova: totalitarismo. Apoiado por uma eficiente força policial, por partidos políticos de massas e por ideologias radicais que visavam controlar todos os aspectos da vida humana, este novo tipo de estado lançou-se num projecto que não ambicionava menos do que dominar o mundo. (...) Existiam, obviamente, muitas tiranias sangrentas antes do século XX, mas Hitler e Estaline colocaram a tecnologia e a organização política moderna ao serviço do mal. (...)
A experiência do século XX faz que se tornassem altamente problemáticas as pretenções de progresso com base na ciência e na tecnologia. É que a capacidade tecnológica para melhorar a vida humana depende grandemente de um paralelo progresso moral do homem. Sem este último, o poder da tecnologia seria simplesmente usado para o mal e a humanidade ficaria pior do que anteriormente. (...)
Os acontecimentos traumatizantes do século XX foram também o pano de fundo de uma profunda crise intelectual. Apenas é possível falar de progresso histórico se se souber para onde caminha a humanidade. (...)
O pessimismo do presente quanto à possibilidade de progresso na história nasceu de duas crises separadas, mas paralelas: a crise política do século XX e a crise intelectual do racionalismo ocidental. A primeira matou dezenas de milhões de pessoas e forçou centenas de milhões a viverem sob novas e mais brutais formas de escravidão; a segunda deixou a democracia liberal sem recursos intelectuais para se defender. (...)".

Eis que se dá então uma evolução no pensamento de Fukuyama, atendendo ao considerado início de uma nova época caracterizadora do rumo da História:

"(...) Mesmo assim, apesar das poderosas razões para o pessimismo geradas pela nossa experiência da primeira metade deste século, os acontecimentos da segunda metade têm vindo a apontar para uma direcção muito diferente e inesperada. Ao atingirmos os anos 90, o mundo, como um todo, não deu a conhecer novos malefícios, antes se tem revelado melhor de certos e distintos modos. A maior surpresa do passado recente foi o colapso absolutamente inesperado do comunismo em grande parte do mundo nos finais dos anos 80. Mas esta evolução, apesar de notável, foi apenas uma parte de um mais vasto modelo de acontecimentos que haviam começado a tomar forma desde a segunda guerra mundial. (...) Se a principal inovação política do início do século XX foi a invenção dos fortes estados totalitários da Alemanha e da Rússia, as últimas décadas revelaram uma tremenda fraqueza interna. Esta fraqueza, tão maciça e inesperada, sugere que as lições pessimistas acerca da história, que o nosso século supostamente nos ensinou, precisam de ser repensadas desde o início."

(FUKUYAMA, Francis- O fim da história e o último homem. 2ª ed. Lisboa: Gradiva, 1999, p. 27-35).

Publicado por sandra em setembro 2, 2003 09:11 PM
Comentários

contemporaneo e seculo XX

Afixado por: Estevão Luiz em novembro 19, 2004 12:51 PM