Sociólogo francês, Henri-Pierre Jeudi, na sua obra A sociedade transbordante, publicada em Portugal pelas Edições Século XXI, apresenta uma abordagem da História profundamente relacionada com a forma como caracteriza e interpreta o mundo contemporâneo, absolutamente imbuído pela cultura dos média e da comunicação, com interferência inequívoca das novas tecnologias da informação.
Entendendo a época actual como altamente propiciadora para a criação de ilusões na e da História, a vertente simbólica é por demais valorizada e feita relacionar com um processo específico que se encontra em curso e que molda as formas de imposição ou, mais suavemente, de construção da memória.
Neste sentido entende o investigador que:
"Na construção do acontecimento, os media elaboram um enquadramento. Podemos assim dizer que participam plenamente na realização da história. Mas de qual história? (...)
Mais do que nunca, num processo de mediatização geral, a lógica da história exibe-se como uma abstracção total, como o fruto da própria produção dos acontecimentos. Assim se constrói a antecipação da continuidade. O que acontece, devia acontecer, era inevitável. (...) Como poderia a verdade ser falsificada? Esta lógica da História funda-se no seu próprio poder moralizador, sendo cada acontecimento testemunha exemplar na medida em que não é ensombrado pela sua apresentação desviada. Esse jogo de reenvio em espelho entre o acontecimento, a sua encenação, a sua interpretação, a sua significação consignada, supõe uma certa orquestração. Pode-se sempre considerar os jornalistas e os homens políticos como os organizadores de uma tal cenografia. Mas isso em nada explica a perfeição do fechar-se em círculo da própria história. Pouco importam as responsabilidades! Sabia-se que os media eram um excelente instrumento para fazer história, mas apercebemo-nos também do quanto eles permitem encenar a Razão aparente da história".
(JEUDY, Henri-Pierre- A sociedade transbordante. Lisboa: Edições Século XXI, [1995] p.51-54).
Pela importância que assumem presentemente as relações construidas ou que podem ser construidas entre a vivência da História e a Sociedade da Informação e da Comunicação, com todas as características a esta inerentes, com este post iniciamos a abordagem de tal problemática, assim como a procura, recolha e selecção de opiniões ou teorizações em torno das questões que a este nível podem ser levantadas. Porque, relativamente a um passado não muito recente, as categorias de "espaço" e de "tempo" são concebidas, sentidas, vividas e potenciadas de forma diferente, o entendimento do processo histórico de tais alterações não poderia ser afastado. Por isso a necessidade de chamar a atenção quer para as causas, quer para os desenvolvimentos, quer para as implicações.