setembro 05, 2003

PAUL VIRILIO E O SEU ENTENDIMENTO DA VIVÊNCIA DO TEMPO HISTÓRICO: relações com a evolução tecnológica e a sociedade da informação

A análise da evolução tecnológica e a sua relação com a própria sociedade da informação, fazem com que Paul Virilio (1932- ), conhecido como o "pensador da velocidade" apresente na obra Cibermundo: a política do pior (resultante de uma entrevista que lhe foi feita) uma série de reflexões relacionadas com a concepção de História e, por inerência, com as noções de tempo, espaço, velocidade, corporeidade, trajecto e acidente, sendo que cada uma delas por si só tem um papel primordial para o entendimento do que são hoje e serão no futuro as vivências humanas e o seu enquadramento a um âmbito mais alargado.
Virilio vive e sente a História com uma especificidade muito própria, relacionando-a, inclusive, com a própria forma como os acontecimentos são apresentados através dos media. Ou seja, a imediatização de tudo, o directo, o aqui e agora, como que retiram a temporalidade dos factos e acontecimentos. A presentificação da História é um facto, significando esta que "...a imediaticidade do presente tem primazia sobre o passado e sobre o futuro". Os flashes e as imagens apresentados são, pois, um comprovativo de tudo isso, realidade esta sustentada pela forma como os media trabalham, não já sobre a forma de narração.
Temos então a constatação da imposição de uma teoria da economia política da velocidade caracterizadora das sociedades actuais, integradas estas no tempo histórico em que se vive, pois "No momento em que se é ameaçado por uma cibernética social, pelas telecomunicações, pela Internet e pela automatização da interactividade, é necessário que haja uma economia política da velocidade como há uma economia política da riqueza e da acumulação. Senão, não poderemos resistir a esta poluição das distâncias que é imperceptível e invisível".
Ao reflectir sobre a presentificação da História, a aceleração das informações e sobre a política da velocidade, Virilio chama a atenção para aquilo a que denomina de "amputação do volume do tempo". Na medida em que o tempo é volume e o Homem está inserido em três dimensões de tempo cronológico (passado, presente e futuro), com a força que actualmente reveste a dimensão presente, esse mesmo volume é posto em causa: porque cada vez mais se vive em tempo real que questiona a efectividade de uma série de outras vertentes e nos faz remeter para outras noções.
A nova concepção de tempo leva-nos necessariamente para um outro conceito de espaço e de velocidade. Se o presente é o que se impõe, a aceleração predomina, logo, o espaço reduz-se. Ou seja, através da "hiperconcentração do tempo real", há o caminhar para o desenquadrar do Homem da tridimensionalidade temporal, devido à imposição do actuar à "velocidade da luz", o que implica por seu lado, o alterar do próprio conceito de trajecto, o qual, por si só, também tem como inerente três dimensões (partida, viagem, chegada) e do conceito de corporeidade que cada vez mais se vai transformando em virtual ou numa espécie de "presente-ausente", sem que a matéria lá esteja. E no meio de tudo isto, o acidente (o que significa a negatividade ou o lado negativo que a própria evolução comporta) a acontecer, passa de local e geral porque o estreitamento do Mundo assim o permite.
É portanto constatável que Paul Virilio interpreta as evoluções tecnológicas e o que caracteriza a sociedade da informação de uma forma muito para além do meramente factual ou reduzido a uma análise de carácter micro. Há outros patamares que são atentamente referenciados e que enquadram tudo aquilo que se vai verificando a um nível mais do senso comum, sendo precisamente esses aspectos que são valorizados por outros analistas e estudiosos, mas sobretudo pelo cidadão comum que facilmente se rende e deslumbra com tudo aquilo que de novo vai surgindo, acelerando por isso determinado tipo de consumos, adoptando determinados comportamentos e hábitos, conduzindo por tudo isso a determinado tipo de produções e práticas a vários níveis da vivência social.

(Referência bibliográfica: VIRILIO, Paul- Cibermundo: a política do pior. Lisboa: Teorema, 2000).

Publicado por sandra em setembro 5, 2003 04:57 PM
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