Hegel (1770 Estugarda-1831 Berlim) foi o principal representante do Idealismo alemão. No âmbito do seu sistema filosófico apresenta o mundo como resultante do desenvolvimento do Espírito (do Absoluto), desenvolvimento este que se realiza através de um processo dialéctico (tese, antítese, síntese).
De acordo com Hegel a História nada mais representa do que um processo racional, que traduz, em fases distintas, os resultados das implicações da "Ideia de Liberdade". Entende o filósofo que a Liberdade é a essência do Espírito, sendo a Filosofia da História, por isso mesmo, parte da Filosofia do Espírito.
A História é apresentada como um desenvolvimento progressivo em direcção a determinado sentido, ideia esta característica do pensamento Iluminista. E esse sentido, que implicava um percurso por fases determinadas era, inequivocamente, a realização da Liberdade, que nada mais é do que o reconhecimento e a adopção de objectos substanciais universais como o Direito, a Lei e, em última instância, o Estado.
No que concerne às acções específicas dos indivíduos, estas deveriam ser entendidas dentro de um determinado contexto histórico que exigia ou tornava necessárias a sua efectivação, o mesmo se verificando no que respeita a instituições e formas de governo.
No caso do desenvolvimento das nações, este significava contributos particulares ao nível religioso, político, moral, legal, científico e artístico, para o progresso histórico global, ou seja, para o desenvolvimnento do Espírito do Mundo.
Como obras principais Hegel deixou: Fenomenologia do Espírito (1807), A cidade da lógica (1812-1816), Filosofia do Direito (1821) e as Conferências sobre a Filosofia da História (proferidas nos últimos anos da sua vida).
Registemos, então, alguns excertos de textos por si produzidos:
"Deve-se observar desde o início que o fenómeno que investigamos- História Universal- pertence ao domínio do espírito. (...)
Na posição em que a observamos- A História Universal- o Espírito manifesta-se na sua mais concreta realidade. Não obstante isto (...) devemos mencionar algumas características abstractas da natureza do espírito. (...) No presente não é oportuno expor a ideia de Espírito especulativamente, porque tudo o que tenha lugar numa introdução deve, como já se observou, ser tomado como simplesmente histórico; algo considerado como já tendo sido explicado e comprovado noutro lugar, ou cuja demonstração aguarda a confirmação da própria Ciência Histórica. Temos portanto de mencionar aqui:
1) As características abstractas da natureza do Espírito.
2) Os meios que o Espírito utiliza para realizar a sua Ideia.
3) Por último devemos considerar a forma que assume a corporação perfeita do Espírito- o Estado.
(...), a essência do Espírito, é a Liberdade. Todos admitirão sem hesitar a teoria de que o Espírito, entre outras propriedades, também é dotado de Liberdade. (...)
A questão dos meios pelos quais a Liberdade se desenvolve num Mundo conduz-nos ao fenómeno da própria História. Embora a Liberdade seja em princípio uma ideia incoativa, os meios que usa são externos e fenoménicos e oferecendo-se na História à nossa visão sensível. O primeiro relance à História convence-nos de que as acções dos homens provêm das suas necessidades, paixões, caracteres e talentos, e impõe-nos a convicção de que tais necessidades, paixões e interesses são as únicas fontes de acção (...).
Esta vasta acumulação de vontades, interesses e actividades constitui os instrumentos e os meios que o Espírito cósmico usa para atingir o seu objectivo, tornando-o consciente e efectivando-o. (...) Mas poderia pôr-se em dúvida que essas manifestações de vitalidade da parte de indivíduos e povos, nas quais eles procuram e satisfazem seus próprios fins, fossem ao mesmo tempo os meios e instrumentos de um fim mais alto e vasto, do qual nada sabem- que realizam inconscientemente (...). Mas sobre esta questão, logo no início anunciei o meu ponto de vista e defendi a nossa hipótese (...) e a nossa convicção de que a Razão governa o mundo e tem, consequentemente, governado a sua história. Em relação a esta existência universal e substancialmente autónoma- tudo o mais se lhe subordina e submete, bem como os seus meios de desenvolvimento. (...)"
No que respeita ao desenvolvimento do Espírito no sentido de alcançar o seu objecto- o Estado-, escreve o filósofo:
"(...) em que material se concretiza o Ideal da Razão? (...), afirmamos que a Lei, a Moral e o Governo, e só eles, são a realidade e acabamento positivos da Liberdade. A Liberdade de uma ordem mesquinha e limitada é um mero capricho que se realiza na esfera dos desejos privativos e limitados.
Na história do Mundo apenas podem atrair a nossa atenção os povos que constituem um estado. Porque é preciso compreender que este representa a realização da Liberdade, isto é, do objectivo último e absoluto, e que existe apenas para a assegurar. Além disso deve-se compreender que tudo o que o ser humano tem de valioso, toda a realidade espiritual, ele possui por intermédio do Estado".
(Excertos extraídos de: GARDINER, Patrick- Teorias da história. 4ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1995, p. 73-82. Sublinhado nosso).