No "Prefácio" constante do 1º volume da biografia de Álvaro Cunhal, elaborada por Pacheco Pereira, considera este a propósito da construção da história do PCP, da ideia de história de Álvaro Cunhal e, paralelamente, sobre a pessoa deste:
" (...) O problema do PCP não é com as "análises", é com os factos. No plano ideológico e político, Álvaro Cunhal tem uma concepção instrumentalista da história que tem a ver, acima de tudo, com a "identidade". Para Cunhal, a história tem sentido e direcção, logo uma retaguarda e uma vanguarda. Há quem esteja com a história e quem esteja contra a história.
Daí que a própria revelação dos factos têm a ver com a sua hierarquia em relação ao sentido dessa história. Uma história que não seja assim é percebida como uma invasão na identidade partidária, uma perigosa ruptura com essa hierarquia de acontecimentos. Está, para Cunhal, uma batalha em curso, usando a "história" do PCP como arma, e ele não quer ajudar os "inimigos" do partido. A "história" do PCP é, para ele, um instrumento de "luta" e, face a esta concepção da história, há "amigos" e há "inimigos".
Num texto já antigo que escrevi, o primeiro que se publicou sobre a resistência do PCP ao conhecimento da sua história, e que suscitou na altura uma dura polémica porque o PCP e a esquerda o receberam quase como uma provocação, identifiquei os núcleos de omissão e manipulação que o PCP transportava consigo. Quase vinte anos depois, pouco mudou: os mesmos períodos malditos, as mesmas pessoas obliteradas dos acontecimentos, os mesmos documentos desaparecidos, os mesmos critérios de exclusão e inclusão do que é politicamente aceitável ou é para esquecer.
De mal com a sua história, o PCP não consegue libertar-se não só da instrumentalidade, mas também dos fragmentos de "história oficial" que produziu e que qualquer investigação histórica contraria. Resta-lhe uma resistência cada vez mais sem sentido- o silenciamento forçado dos seus militantes, os arquivos fechados, a incomodidade crescente, cada vez que se conhece mais sobre o que se passou".
(PEREIRA, José Pacheco- Álvaro Cunhal. Uma biografia política. "Daniel", o jovem revolucionário (1913-1941). Volume 1. Lisboa: Temas e Debates, 1999, p. XIII-XIV).
Publicado por sandra em setembro 8, 2003 08:43 PM