Assumindo inequivocamente o entendimento de que o Terrorismo é uma realidade que faz parte da multiplicidade dos cenários constitutivos do percurso histórico das sociedades contemporâneas (logo, da História Contemporânea), interferindo naqueles que são os seus caminhos e opções em termos políticos, económicos, sociais, culturais e mentais, deixamos registado um excerto de texto da autoria de José Pacheco Pereira, publicado hoje no jornal "Público", intitulado "A nova guerra total", revelador daquele que é o seu entendimento sobre a questão:
"(...) Que tipo de guerra é esta que os EUA estão a travar? A expressão "guerra ao terrorismo" é redutora para precisar o mais vasto alcance do conflito. Não sou capaz de encontrar outra designação, mas penso que é qualquer coisa entre a "guerra contra o terrorismo" e o "conflito de civilizações" de Huntington. Tem elementos de uma coisa e de outra. (...)
O que é que provoca esta guerra? Não é a pobreza, nem a exploração colonial, nem o esmagamento da identidade de nações, nem a globalização, mas a percepção tida, após 1989, da vitória potencial da democracia e do capitalismo no plano global. Contra essa vitória percebida, ergue-se uma combinação trágica, mas não se pode ocultar por motivos "politicamente correctos", de uma deriva religiosa e social que envolve o fundamentalismo islâmico. Este funciona como fronteira de resistência contra a democracia, o Estado laico, a que se associam outros elementos sociais, como seja a existência de sociedades assentes numa relação sexual de dominação total dos homens sobre as mulheres. Bernard Lewis insistiu no papel da vontade por parte dos homens de manter uma pressão social das mulheres como um dos factores de resistência do mundo islâmico a qualquer modernidade. Esta relação é uma relação de poder, societal, mais importante do que se pensa, neste lado do mundo.
Depois do fim da URSS, a expansão de um sistema mundial unipolar assente na democratização, na marginalização dos Estados párias, no isolamento dos ditadores, foi sentida no mundo muçulmano como uma ameaça para a ordem social, que tem na ordem religiosa um elemento decisivo de legitimação. Na recusa do "american way of life", recusa contraditória no plano cultural e dos costumes, está presente mais do que os EUA, mas sim todas as sociedades democráticas e os Estados laicos do Ocidente, e o seu modo de vida. Este é o aspecto civilizacional do conflito".
(In: "Público", p. 17. Sublinhado nosso.)
Publicado por sandra em setembro 11, 2003 03:40 PM