No ambito de um texto intitulado "Da arte enquanto construção antropológica e histórica", escreve em O Militante, Manuel Gusmão, Professor Universitário e Membro do Comité Central do PCP, relativamente ao pensamento e teorização de Marx (e Engels):
"Vou tentar esboçar uma resposta a um problema que é parte de um problema maior. Este último, que aqui apenas esboçarei, seria o seguinte: que singularidades do pensamento de Marx nos podem ajudar a compreender que ele se mantenha activo, ou que possa ainda hoje ser, quer invocado, apropriado e desenvolvido, por pensadores contemporâneos, quer recalcado, abusivamente reduzido e activamente combatido.
Uma primeira dessas singularidades, que acima referi e de que apenas esboçarei uma lista não fechada, tem a ver com o modo como esse pensamento (que é teórico e crítico, laico e programático) se entrelaçou intensamente com a esfera da acção, o que aliás ajuda a compreender que tenha sido até hoje reivindicado por organizações sociais e políticas, enquanto não há sindicatos ou partidos kantianos nem hegelianos, nem mesmo nietzschianos. Esta unidade entre pensamento e acção foi aliás frequentemente tematizada pelo próprio Marx, nomeadamente, na célebre tese 11 das Teses sobre Feuerbach: "Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes, a questão é transformá-lo".
Esta tese está aliás ligada a um modo novo de compreender o conhecimento que se afasta dos vários modos de o entender como uma relação de adequação entre uma formulação discursiva ou lógica e um estado de coisas, uma situação, etc. Esta unidade entre conhecer, pensar e transformar pressupõe que o mundo não é apenas um dado, algo que condiciona e constrange a nossa acção e as representações que dele temos- "O mundo é [também] a nossa tarefa", segundo a sugestiva formulação de um judeu alemão do século XX que viveu e pensou dramaticamente a ligação entre o materialismo histórico e o messianismo judaico.
Uma segunda singularidade do pensamento de Marx é a de ser um pensamento da história e da acção histórica que se assumiu como radicalmente laico e como sendo ele próprio histórico, não apenas na sua génese, mas enquanto sujeito à transformação ou mudança de forma no tempo. Ou seja, o marxismo pode (deve) pensar a sua própria historicidade e a sua evolução histórica. Por exemplo, tal como nasce no quadro do desenvolvimento do capitalismo, do aparecimento do proletariado e do movimento operário e, nesse sentido, é finito, assim também podemos admitir que numa situação em que o capitalismo deixasse de o ser, e fosse substituído por um sistema socialista ou comunista mundializado, então pelo menos largos aspectos do pensamento de Marx teriam deixado de ser actuais, a sua operatividade e o seu ponto de aplicação ter-se-iam, no mínimo, deslocado. Não é esta obviamente a nossa situação: a fase actual de globalização capitalista mantém se é que não acentua a necessidade do seu desenvolvimento crítico e criador. Este carácter histórico pode ser observado de diferentes pontos de vista: basta por exemplo ler os prefácios às edições do Manifesto do Partido Comunista, para encontrar em acto a consistência estratégica do pensamento de Marx e Engels e as mutações que advém da sua atenção às circunstâncias que vão mudando.
A terceira singularidade podemos enunciá-la recorrendo a Lénine (...), Lenine apresenta a certa altura uma preciosa definição da dialéctica enquanto método: trata-se, diz ele, de "uma análise dupla, dedutiva e indutiva, - lógica e histórica (...)". (...)
Ora, a dialéctica materialista, enquanto aquela "análise dupla" de que fala Lénine, é justamente a tentativa de evitar a unilateridade metafísica dessa como de outras oposições binárias. (...)
Para a quarta singularidade (...), contribuem de uma forma ou de outra, todas as anteriores. Esta singularidade tem agora a ver com o modo como a teoria da história que Marx e Engels decisivamente abrem é, ao mesmo tempo, uma teoria política da revolução social, que não é nem uma fatalidade, nem um acto de vontade. Esta concepção tem o seu núcleo duro num modo de conceber a luta de classes que, por um lado, a enraíza no processo material de produção e reprodução do viver social, na relação dialéctica, ou seja, formal e histórica, entre forças produtivas e relações de produção e, por outro lado, a projecta e coloca no horizonte teórico-prático das forças sociais e humanas como a tarefa possível e a possibilidade real de uma sociedade sem classes. (...)".
(In: O Militante. nº 266, Setembro/Outubro 2003, p. 55-57).
Publicado por sandra em setembro 11, 2003 05:25 PM