setembro 13, 2003

A PRIVATIZAÇÃO DA HISTÓRIA: opinião de António Manuel Hespanha

No passado mês de Abril, na revista História, António Manuel Hespanha, professor universitário, investigador do Instituto de Ciências Sociais e colaborador nesta mesma publicações, apresenta um texto intitulado "A privatização da história". Pela importância das questões nele abordadas, mas sobretudo pelo estilo e tom com que o faz, vale a pena, em nosso entender, deixar aqui a sua transcrição:

"Esse meu amigo enganou-se redondamente. Não porque todos os dias não haja mais história (e, de facto, mais lixo). Mas porque, segundo as leis do mercado, o que determina a fixação do preço não são os stocks da matéria prima, mas os equilíbrios da oferta e da procura.
Ora é a estes equilíbrios que nos temos que ir habituando. Parece que algum responsável pela investigação já disse que isto das ciências humanas não é o que está a dar. Felizmente, o homem nem pensou na História, o que, a ter acontecido, muito compreensivelmente, lhe teria provocado esgares. De "serviço público" da história, disso sensatamente nem se fala. Embora todos os dias os mesmos responsáveis se arrepelem perante a ignomínia que é o desconhecimento geral da nossa história pelas nossas camadas infanto-juvenis (hic!...)
Mas, sobretudo nesta coluna, a crítica é sempre construtiva. Daí que me tenha ocorrido esta ideia útil de que talvez se pudesse privatizar a história; a sua investigação, pelo menos.
Claro que isto teria que ser feito com método, aquele mesmo que é usado nas outras privatizações. Teríamos que começar por definir áreas rentáveis e não rentáveis da história. As primeiras para privatizar; as segundas para nós pagarmos.
Entre as primeiras, as que vendem, vejo a história do sexo e do corpo (ilustrada, de preferência), a história das mulheres (ilustrada ou não, dependendo), a das casas reais (sobretudo na época contemporânea), a história de Camarate. Para o mercado externo, a história da saudade, do fado e do azulejo; e, especialmente para o mercado espanhol, a história da tauromaquia, e, porventura, a história dos bancos portugueses, até porque já quase todos pertencem à história. Muita história da empresa privada e da livre iniciativa, histórias de famosos, histórias famosas, histórias de famas e famas na história. Tudo isto seria entregue à sociedade civil- desde a Igreja (para a história cultural e das mentalidades) e a maçonaria (para a história política) até ao Belas Country Club (para a história social e para as biografias), ao Casino da Póvoa (para a história industrial) ou ao cobrador do Fraque (para a história económica).
A outra, a que teria que continuar a cargo do estado, poderia ainda ser sub-dividida em duas secções.
A primeira secção seria aquela que, com alguns despedimentos e sujeita a uma gestão moderna e estrangeira, poderia ser recuperada. Por exemplo, a história da Europa (sobeetudo de Leste), a história do integrismo islâmico e do choque das civilizações, a história da democracia (sobretudo se relacionada com a história da informação e com a aldeia global), a história do ambiente, da ajuda ao desenvolvimento, da guerra preventiva, dos peace keeping exploits e, de um modo geral (ou seja, não generalizando o tema a todos os seus particulares), a história portuguesa no mundo.
A segunda secção seria, pura e simplesmente para encerrar, despedindo o pessoal assim ao estilo do Vale do Ave, sem qualquer subsídio e com salários em atraso. Refiro-me, claro está, à história da cultura clássica, medieval e early modern. Sobretudo a que lida com latim ou outra qualquer língua muito morta, que trate de teologia, que adopte uma perspectiva estrutural ou, de algum modo, pouco divertida. Ou seja, em geral, toda a história difícil, indigesta ou caústica em relação aos achievements da civilização ocidental. Todos os historiadores assim libertos para o trabalho produtivo seriam reconvertidos em técnicos auxiliares de laboratório de fábricas de rações ou em brigadas de investigação de white colar criminality. Onde continuariam seguramente a patentear a inanidade do seu trabalho e, por isso, a inutilidade dos seus préstimos. Alguns mais vivaços poderiam ir de inspectores de armas de destruição massiva. Talvez as encontrassem. Aonde, é que não se sabe".

(HESPANHA, António Manuel- "A privatização da história". In: História. Nº 55. Abril de 2003, p. 18-19).

Por tudo isto, e em nosso entender, a opinião/solução apresentada serve para fazer reflectir sobre vários aspectos: os atrasos verificados em certas áreas de tratamento da História, a falta de apoio à pesquisa e à investigação em Portugal, as tendências da oferta e da procura no mercado (que acabam sempre por revelar gostos e modas de momento) , assim como a ignorância - por vezes chocante- da História por certas camadas da população.
Num contexto em que em Portugal o discurso político é dominado pela vertente económica, ao qual a Cultura também não escapa, vale a pena debruçarmo-nos sobre o que se tem feito, qual o ponto da situação, mas sobretudo sobre o que ainda é preciso fazer e ultrapassar, para que, na área específica da História as evoluções possam ser maiores, contribuindo-se dessa forma para evitar ou diminuir, por exemplo, falsificações ou branquamentos, reforçar o estatuto da "Memória", assim salientar e valorizar aquele que é o nosso património cultural. Mas tudo, claro, ao nível do "serviço público da História"!

Publicado por sandra em setembro 13, 2003 11:57 AM
Comentários

surpresa este blog. espero que não acabe no dia 13

Afixado por: tchernignobyl em setembro 20, 2003 07:10 PM