Na sequência do que já escrevemos sobre Hegel e de excertos dos seus escritos igualmente apresentados, acrescentamos agora nova informação, desta vez relativa ao princípio do desenvolvimento do Espírito no âmbito da História Universal.
Considerava o filósofo:
"(...) Além disso, os povos, como configurações espirituais, são também, em certo sentido, seres naturais. Por isso, os distintos produtos revelam-se também como coexistindo e perdurando no espaço, indiferentes uns aos outros. Se lançarmos um olhar sobre o mundo, descobrimos nas suas partes antigas três configurações principais: o princípio asiático interior, que é também na história o primeiro (o mongólico, o chinês e o indiano); o mundo maometano, em que existe o princípio do Espírito abstracto, do Deus único, mas a que se contrapõe o arbítrio desenfreado; e o mundo cristão, europeu-ocidental; aqui se alcançou o princípio supremo, o conhecimento pelo Espírito de si mesmo e da sua profundidade. (...)
A progressão determina-se em geral de modo a constituir a série de fases da consciência. O homem começa por ser uma criança com uma abafada consciência do mundo e de si mesmo; sabemos que, desde a consciência empírica, ele tem de percorrer vários estádios até chegar a saber o que é em si e para si. A criança começa com a sensação; dai passa o homem ao estado das representações gerais, em seguida, ao estado do conceito e chega então a conhecer a alma das coisas, a sua verdadeira natureza. (...)
A progressão é, desde modo, uma formação da consciência, e não é simplesmente quantitativa, mas uma série de fases de diferentes referências ao que é essencial.
Ora a história universal representa a gradação do desenvolvimento do princípio cujo conteúdo é a consciência da liberdade. (...)
A primeira época em que consideramos o espírito é comparável, portanto, ao espírito infantil. Reina aqui a chamada unidade do espírito com a natureza, que encontramos no mundo oriental. Este espírito natural é o que ainda se encontra na natureza, e não junto de si mesmo; por isso, ainda não é livre, não saiu vitorioso do processo da liberdade. Também nesta situação do espírito encontramos Estados, artes, começos das ciências; mas todos eles se encontram no terreno da natureza. Neste primeiro mundo patriarcal, o espiritual é algo de substancial a que se acrescenta o indivíduo somente como acidente. À vontade de um pertencem os outros como crianças, como subordinados.
A segunda condição do espírito é a da separação, da reflexão do espírito em si, a saída da simples obediência e confiança. Tal situação divide-se em duas. A primeira é a juventude do espírito; este tem uma liberdade por si, mas ainda conexa à substancialidade. A liberdade não renasceu ainda da profundidade do espírito. Tal é o mundo grego. A outra situação é a da idade viril do espírito, em que o indivíduo tem os seus fins para si, mas só os alcança ao serviço de um universal, do Estado. Eis o mundo romano. Aqui se encontra a oposição entre a personalidade do indivíduo e o serviço perante o universal.
Em quarto lugar, segue-se então a época germânica, o mundo cristão. Se aqui se pudesse comparar também o espírito com o indivíduo deveria chamar-se a esta época a senectude do espírito. O peculiar da velhice é viver apenas da recordação, do passado, e não no presente; e, por isso, a comparação é aqui impossível. O indivíduo, segundo a sua negatividade, pertence ao elemento e desvanece-se. Mas o espírito retorna aos seus conceitos. Na época cristã, o Espírito divino veio ao mundo, pôs a sua sede no indivíduo, que agora é perfeitamente livre, tem em si uma liberdade substancial. Tal é a reconciliação do espírito subjectivo com o objectivo. O espírito reconciliou-se, fez-se um com o seu conceito, no qual se cindira em vista da subjectividade, saindo para tal do estado da natureza.- Ora tudo isto é o a priori da história, a que a experiência deve corresponder.
Estas fases são os princípios fundamentais do processo universal (...)."
Ainda quanto à concepção de História Universal, entende Hegel:
"(...) Ao conceber a história universal, tratamos da história, antes de mais, como de um passado; mas temos também de lidar simplesmente com o presente. O que é verdadeiro é eterno em si e para si, não é nem de ontem nem de amanhã, mas pura e simplesmente presente, "agora", no sentido do presente absoluto. Na Ideia conserva-se eternamente o que também se afigura passado. A Ideia é presente, o Espírito é imortal; não há outrora algum em que ele não existisse ou não existiria; não passou, não pode dizer-se que ainda não é, mas é absolutamente agora. Afirmou-se já assim que o mundo e a figura presentes do espírito, a sua autoconsciência, compreendem em si todos os estádios anteriores da história. Estes desenvolveram-se sucessivamente como autónomos; mas o espírito foi em si sempre o que é e a diferença é somente o desdobramento deste em si. O espírito do mundo actual é o conceito que o espírito de si mesmo elaborou (...). Assim devemos apreender a história universal; nela depara-se-nos o trabalho do espírito, o modo como este chega ao conhecimento do que ele é e o realizou nas distintas esferas por ele condicionadas. (...) O espírito tem ainda em si todos os estádios do passado, e a vida do espírito na história é um ciclo de fases distintas, em parte actuais, em parte surgidas numa configuração passada. (...) Os momentos que o espírito parece ter atrás de si tem-nos também na sua profundidade actual. E assim percorreu os seus momentos na história, assim igualmente os deve percorrer no presente- no conceito de si".
(HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich- A razão na história. Introdução à Filosofia da História Universal. Lisboa: Edições 70, 1995, p. 131-133; 153-154).
Publicado por sandra em setembro 14, 2003 05:46 PM
basicamente e objetivamente no que Hegel se refere quando ele fala sobre o "espirito"?
Obrigado
Afixado por: Prof. Gênesis Barbará em outubro 1, 2003 08:52 PM