Hannah Arendt (14/10/1906-04/12/1975), filósofa e politicóloga germano-americana na "Introdução" da sua obra Sobre a revolução, onde aborda a natureza dos sistemas políticos actuais nos EUA e na Europa, analisando quer a Revolução Americana, quer a Revolução Francesa, apresenta as seguintes interpretações relativamente à "Guerra" no percurso histórico:
"(...) Historicamente, as guerras fazem parte dos fenómenos mais antigos do passado (...). o objectivo da guerra só em raros casos se ligava à noção de liberdade; e embora seja verdade que os levantamentos contra um invasor estrangeiro foram frequentemente tidos como sagrados, nunca foram reconhecidos em teoria ou na prática como as únicas guerras justas.
A justificação das guerras, mesmo num nível teórico, é bastante antiga, embora é claro, não tão antiga como a táctica militar organizada. (...)
Temos, portanto, de passar à antiguidade romana para encontrar a primeira justificação da guerra, juntamente com a primeira noção de haver guerras justas e injustas. Todavia, as distinções e justificações romanas não se referiam à liberdade e não distinguiam entre guerra de agressão ou de defesa. "A guerra que é necessária é justa", disse Tito Lívio, e "sagradas são as armas quando só nelas há esperança" (...). A necessidade, desde a época de Tito Lívio e pelos séculos fora, tem significado muitas coisas consideradas hoje por nós suficientes para apelidar uma guerra de injusta de preferência a justa. Conquistas, expansões, defesa de direitos adquiridos, conservação do poder para promover poderes novos e ameaçadores ou sustentar o equilíbrio de determinado poder- todas estas realidades bem conhecidas da política de força não só foram realmente as causas da aclosão de muitas guerras da história, como também reconhecidas como "necessidades", isto é, motivos legítimos para invocar a decisão pelas armas. (...)
É importante recordar que a ideia de liberdade foi introduzida no debate do problema da guerra só depois de se ter tornado evidente que chegámos a um estado de desenvolvimento técnico em que os meios de destruição eram de molde a excluir o seu uso racional. Por outras palavras, a liberdade apareceu neste debate como um deus ex machina para justificar o que em bases racionais se tornou injustificável. (...)
Independentemente da ameaça do aniquilamento total, que possivelmente novas descobertas técnicas tais como uma bomba especial ou um míssil antimíssil poderiam eliminar, há alguna indícios que apontam nesta direcção. (...)
A verdade é que, mesmo antes do horror da guerra nuclear, as guerras se tornaram politicamente, embora não ainda biologicamente, uma questão de vida ou morte. (...)
(...) [temos igualmente] uma mudança radical na própria natureza da guerra pela introdução da intimidação como princípio condutor da corrida ao armamento. Porque é realmente verdade que a estratégia de intimidação "tem por objectivo evitar, de preferência a ganhar, a guerra que pretende estar a preparar. Visa conseguir os seus fins por meio de uma ameaça nunca realizada, de preferência à própria acção". Certamente que a concepção de que a paz é o objectivo da guerra e, portanto, de que uma guerra é a preparação para a paz, é tão antiga como Aristóteles, e a pretensão de que a finalidade de uma corrida ao armamento é a manutenção da paz é ainda mais antiga, isto é, tão velha como a descoberta da falsa propaganda. (...)"
(ARENDT, Hannah- Sobre a revolução. Lisboa: Relógio D'Água, s.d, p. 12-17).
Terminamos chamando a atenção para o facto deste livro ter resultado de um seminário sobre "Os Estados Unidos e o Espírito Revolucionário", organizado na Universidade de Princeton, na Primavera de 1959, de um subsídio da Fundação Rockefeller em 1960, assim como da estadia da autora na Universidade de Wesleyana nos finais de 1961, como membro do Centro de Estudos Superiores.