setembro 18, 2003

RESISTÊNCIAS AO ESTADO NOVO: vivências relatadas

Na sequência de indicações bibliográficas já dadas relativas à divulgação e registo de experiências tidas por várias personalidades opositoras e resistentes ao Estado Novo, apresentamos um outro trabalho que entendemos da maior pertinência e avaliamos como de grande qualidade.

Da autoria de Miguel Medina, ilustrações de Luís Rodrigues e edição da Câmara Municipal de Lisboa, a obra em dois volumes, Esboços. Antifascistas relatam as suas experiências nas prisões do fascismo, surge como imperativa para um diálogo aprofundado e esclarecido com os indivíduos referenciados, sendo tal possível através da leitura das entrevistas conduzidas pelo autor.

Para o enquadramento do conteúdo, escreve sobre a forma de "Prefácio", Miguel Medina:

"Estendeu-se uma obscuridade latente sobre Portugal. Os tempos eram outros, apesar de, hoje em dia, ainda sentirmos parte dos seus- por vezes- medievos efeitos.
Foram tempos de luta e de sofrimento, de combates ganhos e batalhas perdidas, de suor e sangue; de torturas, perseguições, clandestinidades, tiros dados em estradas desertas, abatendo aqueles que combatiam, ou nos poderosos movimentos de massas-maiores ou menores- que demonstravam a vontade do povo. De partidas e exílios; de saudade.
Foram tempos de cumplicidades, de disfarces, de sinais, de senhas e contra-senhas, de tipografias e rádios clandestinos. Tempos de fortes laços de solidariedade e traições. Tempos em que jovens, homens e mulheres decidiram entrar num combate desigual, mas nobre e compensador. Tempo de bombas contra o aparelho militar colonial-fascista.
Foram tempos de "aberturas", de branquamento de pulhices, de arrogância, de desprezo pelos fracos. Tempos de canalhices, de desrespeito pelos direitos dos homens consagrados há muitos séculos pela coragem dos povos. Tempos de separações de famílias, de cartas escritas que muitas vezes não chegavam ao seu destinatário, apreendidas nos meandros do aparelho repressivo do chamado "Estado Novo".
Foram tempos de exploração desenfreada, de ritmos de trabalho alucinantes, de doenças de trabalho, de racionamento de géneros que só afectavam as classes mais humildes, da Guerra Civil Espanhola e da II Guerra Mundial, da Guerra Fria, do confronto de blocos, de peõs em grandes jogadas; e no campo, o trabalho sol-a-sol, e a repressão, mesmo até à morte, dos que queriam mais tempo e dinheiro para criar a sua família. Tempos de guerras, de mortos e de estropiados- física e moralmente- de combates em terras de continentes distantes- 13 anos na última Guerra Colonial- até ao momento dos seus povos- mais uma vez- enfrentarem quem a eles se opunham, de armas na mão, acabando por vencer, o que foi também a nossa vitória.
Tempos de deserções e exílios pelos meandros do mundo. Tempos de desigualdades, mas também de esperanças, de lutas e de gestos de infinita coragem. Tempos onde nascem heróis e heroinas, modestos no trato, firmes nas convicções, por vezes exuberantes, por vezes calados, prontos a tudo: até à morte.
Tempos de filhos que ficaram sem pais, de avós que ficaram sem netos, de namorados que ficaram sem companheiras. Tempos de fugas e de desencontros, de fome mitigada com um pouco de pão, do rodar da bicicleta, de coberturas para disfarçar situações que o regime perseguia.
Foram tempos de ódio e de amor, de afagos e pancadas, de torturas cada vez mais sofisticadas, de gritos perdidos na noite escura. Tempos em que houve muitos que não se vergaram, que não se corromperam pelos cântigos de sereia do poder, por uns escudos para pagar uma informação que permitisse aos esbirros do "estado" chegar a quem ousava lutar contra a "situação".
Foram os tempos do Tarrafal- Campo da Morte Lenta- da prisão no forte de Angra do Heroísmo, nos Açores, da António Maria Cardoso- sede da PIDE em Lisboa- do Aljube, da Penitenciária de Lisboa ou do forte de Peniche, da sede no Porto da PIDE, na Rua do Heroísmo (ironia histórica...), do forte de Caxias e das prisões espalhadas um pouco por todo o país e colónias. Aí reinava a tortura nos longos corredores de trevas que os presos percorriam, a humilhação dos detidos, o tentar destruir a personalidade dos subjugados momentaneamente, de fazê-los "rachar" das formas mais brutais.
Foram tempos de manifestações gigantescas e combativas reprimidas a jactos de tinta, ou mesmo à espadeirada e ao tiro. Tempos de "eleições" onde sempre se afirmava um poderoso ou, pelo menos significativo, movimento de massas. o húmus das Revoluções. Tempos de pequenos grupos de democratas, de diferentes cores políticas, afirmarem a sua vontade, em acções de agitação, mesmo quando tinham que desaparecer em minutos. Tempos de pichagens. Tempos de imaginação e sonho querendo-se tornar realidade. Tempos de organizar, organizar. Quem? Quem lutava, quem se revoltava, quem ousava desafiar a besta do poder. Quem simplesmente sofria. (...)"

(MEDINA, Miguel- Esboços. Antifascistas relatam as suas experiências nas prisões do fascismo. Lisboa: Câmara Municipal da Lisboa, 1999, p. 5-69).


Quanto aos entrevistados, eles são:

1º volume

- Carlos Aboim Inglez
- Carlos Marques
- Diana Andringa
- Henrique Espírito Santo
- José Morais e Castro
- José Vitoriano
- Margarida Tengarrinha
- Nuno Teotónio Pereira
- Octávio Pato
- Vasco Lourenço
- Veríssima Ramos Rodrigues

2º volume

- Carlos Brito
- Carlos Costa
- Daniel Cabrita
- Domingos Abrantes
- Fernando Blanqui Teixeira
- Jaime Serra
- José Lamego
- Josué Martins Romão
- Ludgero Pinto Basto
- Manuel Antunes da Fonseca (Mário Castrim)
- Maria da Piedade Morgadinho
- Pedro Ramos de Almeida
- Sérgio Vilarigues
- Urbano Tavares Rodrigues


Publicado por sandra em setembro 18, 2003 10:35 PM
Comentários

Gostaria de dados históricos sobre o Castelo de Abrantes-PT, história da família Andrade em Abrantes até século XVIII.

Estou pesquisando títulos da Família de Andrade.

Obrigado!

Afixado por: Danilo Garcia de Andrade em abril 18, 2004 01:35 AM