setembro 21, 2003

ARQUIVOS DE MITROKHIN (1)

Não poderia por nós deixar de ser referida esta publicação, pela importância que o conteúdo da mesma permite acrescentar à História Contemporânea de Portugal, assim como pelo que possibilita esclarecer relativamente ao papel crucial dos arquivos e, consequente manuseamento da documentação:

Arquivos de Mitrokhin. Lisboa: Dom Quixote, 2000.

Com prefácio à edição portuguesa feito por Pacheco Pereira, retiremos alguns excertos relativos especificamente a Portugal, naquilo que teve a ver com os arquivos da PIDE/DGS :

"Portugal ocupa uma pequena parte no arquivo de Mitrokhin e quase toda centrada nos acontecimentos de 1974-5. (...)
[No âmbito de operações soviéticas verificadas em Portugal]... avulta o envio, em 1975, para Moscovo de uma parte significativa do arquivo da PIDE/DGS. (...) Para compreendermos a importância deste envio de documentos (...) temos de ter em conta que o âmbito de acção da PIDE/DGS era incomum nas polícias dos países fora da esfera soviética e muito semelhante ao do próprio KGB. A PIDE era uma polícia com funções instrutórias, com controlo de fronteiras, com controlo de actividades paramilitares. Era a interlocutora portuguesa de muitas outras polícias diferenciadas e serviços de informação estrangeiros. Era igualmente uma polícia política de um pais da OTAN (...)
Entre o material que receberam conta-se, sem dúvida, tudo o que diz respeito às relações da PIDE com os serviços de informação ocidentais, em particular a CIA, o FBI, os serviços ingleses e espanhóis, sul-africanos, rodesianos. Embora a PIDE/DGS não recebesse informação do mais alto grau, a não ser numa estrita "necessidade de saber", e mesmo assim muitas vezes na base de contactos pessoais com agentes determinados, recebia relatórios de síntese e pedidos de informação que revelavam os conhecimentos e os interesses dos serviços ocidentais. Para o KGB iria ser precioso.
É preciso não esquecer que em 1975 os arquivos da PIDE não eram arquivos "mortos" com interesse apenas para os historiadores, mas sim arquivos com grande potencial operacional que permitiam tudo: desmascarar informadores, identificar infiltrações, fazer chantagem, etc, etc. (...)".

O próximo post incidirá sobre o papel do Partido Comunista Português, de acordo com o prefaciador, em todo este cenário de operações soviéticas nos anos de 1974-1975.

Publicado por sandra em setembro 21, 2003 08:27 AM
Comentários

A relação do PCP com os arquivos sempre foi complicada. Se em relação aos arquivos da PIDE cedo se encarregou de ilegitimamente os exportar para a "locomotiva" da Revolução, em relação aos seu próprio arquivo interno, teima em mantê-lo fechado muito provavelmente com receio do que os historiadores independentes poderiam descobrir...

Afixado por: Alexandre Monteiro em setembro 21, 2003 09:53 AM