No passado dia 10 deste mês editamos um post referindo (ou fazendo lembrança) do 30º aniversário do Golpe de Estado Chileno.
Saido recentemente para o mercado, através das Edições Asa, mais um livro de Luis Sepúlveda. Desta vez, O general e o juíz, precisamente a propósito do aniversário salientado.
Com esta obra (92 páginas) encontramo-nos perante um conjunto de textos escritos entre 1998 e 2000, para diversos jornais da Europa e da América Latina, que permitem precisamente recordar acontecimentos, interpretar e reler a História. Permitem também, e nessa sequência, problematizar bastante, em particular, o papel dos EUA neste mesmo processo histórico.
Recorde-se que no ido ano de 1998 Augusto Pinochet, por ordem do juiz espanhol Baltazar Garzón, foi preso em Inglaterra. Todo o processo terminou com a conclusão relativa ao estado de loucura do antigo ditador e com a sua entrega às autoridades chilenas.
Por entendermos valer a pena, deixamos aqui algumas ideias registadas por Luis Sepúlveda no capítulo da obra em referência, intitulado "Jornadas de luta":
" (...) Pinochet, a direita chilena e o Departamento de Estado norte-americano dirigido por Henry Kissinger forneceram a maldade, a tortura, os desaparecimentos, o exílio, a morte. Nós fornecemos a coragem e as vítimas.
Foi longa a luta no Chile e no exílio. Os camaradas da resistência interna não lhes deram um único dia de descanso. Enquanto os pusilânimes dirigentes negociavam uma espécie de novo modelo inspirado no Leopardo, onde tudo devia mudar para que tudo continuasse na mesma, os resistentes socialistas, comunistas, do MIR, da Frente Patriótica Manuel Rodríguez, os cristãos pelo socialismo encarregaram-se de recordar ao ditador, durante dezasseis anos, que enfrentava uma dignidade inspirada no Conde de Monte Cristo e cujo lema "Nem esquecimento nem perdão" seria seguido e mantido, não obstante os esforços claudicantes daqueles que negociavam um possível regresso à normalidade democrática, regresso que o ditador só aceitou quando, apesar dos assassinatos e desaparecimentos sistemáticos, se encontrou num estado de debilidade face a um povo que resistia. (...)"
Por considerar o papel interveniente que o escritor deve ter, Sepúlveda dá mais um contributo através da sua escrita, para o não esquecimento ou para o não desprezo pela memória e branqueamento da História.
Por isso e só por isso, deve ser incluido na galeria de todos aqueles que utilizam a Literatura como arma, como tradução do inconformismo e como impulso para a mudança.
Disto precisa bastante a História para poder continuar a fazer o seu percurso e para alcançar efectivo sentido.
Este livro é literatura? E só faço esta pergunta por causa do título desta entrada, não porque me interesse por aí além fora deste contexto. E Luis Sepúlveda é autor que respeito. Assim como Jorge Amado (ver artigo no público (Mil folhas de Sábado)onde se fala do último livro de Martin Amis e se refere o escritor brasileiro de que muito admiro a obra. Concordo contigo, ainda que o dissesse de outra forma :) um abraço
Afixado por: luis em setembro 21, 2003 12:24 PMMais do que literatura a última obra de Sepúlveda constitui um conjunto de reflexões e memórias sobre o seu percurso e do Chile desde a ascensão de Allende até à detenção de Pinochet.
Sepúlveda faz parte de um rol de autores latino-americanos, entre os quais Vargas Llosa e mesmo Garcia Marquez , em que a História e a política estão sempre presentes, ainda que em alguns casos de forma subtil.
De Vargas llosa dois exemplos magistrais: " A Guerra do Fim do Mundo" sobre o conflito de Canudos que marcou os primeiros anos da República no Brasil e hoje serve de modelo inspirador às correntes mais radicias do MST ( Movimento dos sem Terra) e " A Festa do Chibo" fabulosa descrição ( Embora romanceada) da terrível ditadura de Trujillo que colocou a República Dominicana a ferro e fogo.
Afixado por: Alexandre Monteiro em setembro 21, 2003 05:44 PMAlexandre lembro-me bem d' A guerra do fim do mundo, um livro q deixou marcas, e claro que há os chamados romances históricos, mas tendo a acreditar que a Literatura é intemporal... :)
Afixado por: luis em setembro 21, 2003 06:26 PMAlexandre e Luís:
Já comentei, noutro contexto, o porquê do "estilo" do título deste post.
Informo que a problemática dos romances históricos vai ser também trazida a este blog. A continuação dos vossos contributos será muito importante e certamente enriquecedora.
Sandra
Afixado por: Sandra em setembro 23, 2003 07:11 AMnews
Afixado por: news- em agosto 3, 2004 02:15 AM