No âmbito de um Seminário intitulado "Para a história da oposição ao Estado Novo", realizado na Universidade Nova de Lisboa a 9 de Abril de 1992, apresenta Álvaro Cunhal, as seguintes ideias referentes à actuação do PCP nos tempos de Ditadura:
"Não é exacta a ideia por vezes avançada de que o PCP nos anos sombrios de clandestinidade se caracterizava por ser um núcleo político fechado, mergulhado numa existência conspirativa e secreta, afastado da vida, do povo, das massas. Tal ideia não corresponde à realidade.
Sem dúvida que, durante os 48 anos de ditadura, o PCP foi a força política que, pelos métodos de organização e acção adoptados, se revelou mais capaz de actuar nas condições de uma severa clandestinidade. Mas, ao mesmo tempo, mais que nenhuma outra força política estabeleceu, manteve e aprofundou nesses anos a ligação com a classe operária, com o povo, com a vida social, política e cultural do país. Quem esteja interessado em investigar esta matéria, encontra valiosos elementos informativos nos jornais clandestinos publicados regularmente (nomeadamente o "Avante!", "O Militante", "O Têxtil", "O Corticeiro", "O Camponês", "A Terra" e outros) e poderá tomar contacto com uma informação viva de situações, de problemas e de lutas mostrando essa profunda ligação. Ligação diária, ligação constante. (...)
O PCP (...), como meio indispensável para chegar às massas, informá-las, influenciá-las, esclarece-las, estimulá-las, organizá-las para a luta, não só aproveitava as possibilidades de acção legal e semi-legal que se pudessem oferecer, como tomava a iniciativa de criá-las. (...). De sublinhar, em relação com este aspecto específico da luta antifascista, o papel dos intelectuais (escritores, artistas plásticos, músicos, cantores, actores, professores) não só participando nas formas gerais de luta antifascista, mas dando também uma ímpar contribuição para a cultura e a defesa de valores democráticos com a sua obra específica.
A íntima ligação com a classe operária, os trabalhadores em geral, os intelectuais, a juventude, e o aproveitamento ou criação de formas de organização legal e semi-legal, eram indissociáveis de uma concepção fundamental do PCP: que a luta popular de massas constituia uma frente de luta determinante e um motor do desenvolvimento do processo que conduziria à revolução antifascista.
A luta do PCP contra a ditadura não se resumia ao desmascaramento da política fascista e ao protesto contra ela. A luta foi conduzida de forma a suscitar, promover e organizar a luta popular com objectivos concretos e imediatos. (...)
Será uma inadvertência de qualquer estudioso da resistência antifascista dar menos atenção e menosprezar o que foram e o que significaram as lutas de massas no tempo da ditadura. Apesar das perseguições e da repressão fascista, a história da resistência é uma história de greves, de manifestações, de concentrações, de campanhas políticas, em muitos casos de extraordinária amplitude, grandeza, nível de organização e heroísmo, que não só constituiram uma demonstração de elevada consciência e combatividade do povo português (com particular relevo da classe operária, dos intelectuais e da juventude), não só incapacitaram o fascismo de criar uma verdadeira base de massas, como constituiram uma valiosíssima escola que acabou por conduzir o regime ao progressivo isolamento e o povo a objectivos gerais de liberdade que vieram a ter exaltante expressão no levantamento popular que se seguiu imediatamente ao levantamento militar do 25 de Abril e ao derrubamento do governo fascista e que, em aliança com os militares do MFA, acabou por determinar as grandes transformações democráticas então verificadas e a instauração e institucionalização do regime democrático. (...)".
(CUNHAL, Álvaro- "O Partido Comunista da "reorganização" dos anos 40 ao 25 de Abril". In: Alguns textos para a história do Partido Comunista Português. Para furar o bloqueio do pensamento único. Amadora: Edição da Comissão Concelhia da Amadora do PCP, 2003, p. 41-44. Sublinhado nosso).
Pelo facto da comunicação proferida pelo ex-Secretário Geral do PCP se revestir de elevado nível de interesse na abordagem que faz a questões diversificadas no âmbito daquele que é o tema global em análise, outros excertos serão aqui apresentados, não necessariamente de acordo com a ordem do discurso- porque isso não é relevante para os objectivos que pretendemos atingir-, mas conforme nos parecer mais conveniente para o que entendermos chamar a atenção.
Publicado por sandra em setembro 22, 2003 06:16 PM