setembro 24, 2003

OS POEMAS BASEADOS NA HISTÓRIA: reflexos de vivências e de convívio com situações (1)

Em sequência do já dito em posts anteriores sobre a por nós denominada "Poesia de Intervenção", apresentamos então, o primeiro grupo de poemas:

António Gedeão

"Enquanto"

Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio/e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé/para ver como é;/enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas/e correr pelos interstícios das pedras,/pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;/enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,/órfãs de pais e de mães,/
andarem acossadas pelas ruas/como matilhas de cães;/enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto/com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,/num silêncio de espanto/rasgado pelo grito da sereia estridente;/enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio/cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas/amassando na mesma lama de extermínio/os ossos dos homens e as treves das suas casas;/enquanto tudo isso acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,/enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,/o poeta escreverá nos muros da cidade:/ ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA.

Sidónio Muralha

"Soneto Imperfeito da caminhada perfeita"

Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas,/que possam perturbar a nossa caminhada,/em que os poetas são os próprios versos dos poemas/e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.
Ninguém fala em parar ou regressar./Ninguém teme as mordaças ou algemas./- O braço que bater há-de cansar/e os poetas são os próprios versos dos poemas.
Versos brandos...Ninguém mos peça agora./Eu já não me pertenço: Sou da hora./E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,/onde cada poema é uma bandeira desfraldada/e os poetas são os próprios versos dos poemas.

João Apolinário

"É preciso avisar..."

É preciso avisar toda a gente/dar notícias informar prevenir/que por cada flor estrangulada/há milhões de sementes a florir.
É preciso avisar toda a gente/segredar a palavra e a senha/engrossando a verdade corrente/duma força que nada detenha.
É preciso avisar toda a gente/que há fogo no meio da floresta/e que os mortos apontam em frente/o caminho da esperança que resta.
É preciso avisar toda a gente/transmitindo este morse de dores./É preciso imperioso e urgente/mais flores mais flores mais flores

Publicado por sandra em setembro 24, 2003 05:44 PM
Comentários

show d bola!!!!!!!!

Afixado por: vanessa em junho 11, 2004 11:31 PM