Continuando a apresentação supra-referenciada:
José Carlos Ary dos Santos
"Soneto escrito na morte de todos os
antifascistas assassinados pela PIDE"
Vararam-te no corpo e não na força/E não importa o nome de quem eras/naquela tarde foste apenas corça/indefesa morrendo às mãos das feras
Mas feras é demais. Apenas hienas/
tão pútridas tão fétidas tão cães/que na sombra farejam as algemas/do nome agora morto que tu tens.
Morreste às mãos da tarde mas foi cedo/Morreste por que não às mãos do medo/que a todos pôs calados e cativos
Por essa tarde havemos de vingar-te/por essa morte havemos de cantar-te:/Para nós não há mortos. Só há vivos.
Mário Dionísio
"Elegia ao companheiro morto"
Meu companheiro morreu às cinco da manhã/ Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã
Ah antes fosse noite noite apenas noite/sem a promessa da manhã
Ah antes fosse noite noite apenas noite/e não houvesse em tudo a promessa risonha da manhã
Deitado para sempre às cinco da manhã
Agora que sabia olhar os homens com força/e ver nas sombras que até aí não via a promessa risonha da manhã
Mas quem se vai interessar amigos quem
por quem só tem o sonho da manhã?
E uma vez de noite ao fim da noite mesmo ao cabo da noite/meu companheiro ficou deitado para sempre/e com a boca cerrada para sempre/e com os olhos fechados para sempre/e com as mãos cruzadas para sempre/imóvel e calado para sempre
E era quase manhã E era quase manhã
Jorge de Sena
"A cor da liberdade"
Não hei-de morrer sem saber/qual a cor da liberdade.
Eu não posso senão ser/desta terra em que nasci./Embora ao mundo pertença/e sempre a verdade vença,/qual será ser livre aqui,/não hei-de morrer sem saber.
Trocaram tudo em maldade,/é quase um crime viver./Mas, embora escondam tudo/e me queiram cego e mudo,/não hei-de morrer sem saber/qual a cor da liberdade.
Miguel Torga
"Não passarão"
Não desesperes, Mãe!/O último triunfo é interdito/Aos heróis que o não são./Lembra-te do teu grito:/Não passarão!
Não passarão!/Só mesmo se parasse o coração/Que te bate no peito./Só mesmo se pudesse haver sentido/Entre o sangue vertido/E o sonho desfeito.
Só mesmo se a raiz bebesse em logo/De traição e de crime./Só mesmo se não fosse o mundo todo/Que na tua tragédia se redime.
Não passarão!/Arde a seara, mas dum simples grão/ Nasce o trigal de novo./Morrem filhos e filhas da nação./Não morre um Povo!
Maria Teresa Horta
"Mulher-resistente"
Eram tantas as torturas.../O Chicote sobre a carne/Que o corpo te inchava/inchava/pelas vergastas cortado
Eram dias sobre noites/em que os olhos te queimaram/em que as veias te romperam/e os ouvidos te rasgaram
Eram meses sobre meses/na cela/só/isolada
Torturas quantas sofreste/minha irmã/sempre calada
Que à polícia não se fala/nem que se morra à pancada!
(Poema dedicado a Mariana Janeiro em nome de todas as mulheres que lutaram contra o fascismo).
É bom poder reler alguns destes textos e descobrir outros deles. Não seria possível indicar a data da edição original, ou mesmo os dados todos da edição donde foram retirados. Obrigado.
pVc
"(...)Torturas quantas sofreste/minha irmã/sempre calada
Que à polícia não se fala/nem que se morra à pancada!"
Palavras fortes.
(uma coisa vem dar à outra, e por via do Silêncio aqui vim dar...)
Cá marcaremos presença também.
Aconselho (não é meu hehehe) www.blogama1963.blogspot.com, cujo nome é "Sebenta".
Penso que será do agrado.
Para já, irei colocar o História e Ciência na categoria "Relatos do Mundo"
Afixado por: Carlos em setembro 25, 2003 03:35 PMPVC:
Os poemas apresentados foram retirados da compilação feita pela deputada do PCP, Odete Santos, e reunidos na obra A ARGAMASSA DOS POEMAS.
A referência bibliográfica é:
SANTOS, Odete- A ARGAMASSA DOS PORMAS. Vila Nova de Gaia: Editora Ausência, 2002.
Chamo, no entanto a atenção, para o facto de muita outra poesia ainda não referenciada e registada neste blog se encontrar dispersa por diversas outras publicações, da autoria daqueles que viveram directamente o que transmitem.
Sandra
Afixado por: Sandra em setembro 27, 2003 11:00 AMCarlos:
Agradeço-te o interesse e a participação. Agradeço-te, também, o endereço deixado.
Sandra
Afixado por: Sandra em setembro 27, 2003 11:01 AMSó gostava de dizer que me chamo Mariana Janeiro.
Afixado por: Mariana em dezembro 22, 2003 09:05 PM