setembro 25, 2003

OS POEMAS BASEADOS NA HISTÓRIA: reflexos de vivências e de convívio com situações (3)

Com as produções que se seguem completamos o objectivo traçado com este conjunto de posts. Sempre que entendermos justificar-se, traremos o tema a este blog, por forma a enriquecer o que até agora já ficou registado, assim como o que isso significa em termos de consubstanciamento reforçado da História.

Segue-se:

Papiniano Carlos

"Canção"

Na fome verde das searas roxas/passeava sorrindo Catarina./Na fome verde das searas roxas/ai a papoula cresce na campina!
Na fome roxa das searas negras/que levas, Catarina, em tua fronte?/Na fome roxa das searas negras/ai devoravam os corvos o horizonte!
Na fome negra das searas rubras/ai da papoula, ai de Catarina!/Na fome negra das searas rubras/trinta balas gritaram na campina.
Trinta balas/te mataram a fome, Catarina.

Sophia de Mello Breyner Andresen

"Catarina Eufémia"

O primeiro tema da reflexão grega é a justiça/E eu penso nesse instante em que ficaste exposta/Estavas grávida porém não recuaste/Porque a tua lição é esta: fazer frente
Pois não deste homem por ti/E não ficaste em casa a cozinhar intrigas/Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres/Nem usaste de manobra ou de calúnia/E não serviste apenas para chorar os mortos
Tinha chegado o tempo/Em que era preciso que alguém não recuasse/E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea/Eras a inocência frontal que não recua/Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante/em que morreste
E a busca da Justiça continua

José Carlos Ary dos Santos

"Não passam mais"

Em nome dos nossos braços/em nome das nossas mãos/em nome de quantos passos/deram os nossos irmãos./Em nome das ferramentas/que nos magoaram os dedos/das torturas, das tormentas/das sevícias dos degredos./Em nome daquele nome/que herdámos dos nossos pais/em nome da sua fome/dizemos: Não passam mais!
E em nome dos milénios/de prisão adicionada/em nome de tantos génios/com a voz amordaçada/em nome dos camponeses/com a terra confiscada/em nome dos Portugueses/com a carne estilhaçada/em nome daqueles nomes/escarrados nos Tribunais/dizemos que há outros nomes/que não passam nunca mais.
Em nome do que nós temos/em nome do que nós fomos/revolução que fizemos/democracia que somos/em nome da unidade/linda flor da classe operária/em nome da liberdade/flor imensa e proletária/em nome dessa vontade/de sermos todos iguais/vamos dizer a verdade/dizendo: não passam mais!
Em nome de quantos corpos/nossos filhos foram feitos./Em nome de quantos mortos/vivem nos nossos direitos./Em nome de quantos vivos/dão mais vida à nossa voz/não mais seremos cativos:/O trabalho somos nós.
Por isso tornos enxadas/canetas frezas dedais/são as nossas barricadas/que dizem: não passam mais!
E em nome das conquistas/vindas dos ventos de Abril/reforma agrária controlo/operário no meio fabril/empresas que são do Estado/porque o seu dono é o povo
em nome de lado a lado/termos feito um país novo./Em nome da nossa frente/e dos nossos ideais/diante de toda a gente/dizemos: não passam mais!
Em nome do que passámos/não deixaremos passar/o patrão que ultrapassámos/e que nos quer trespassar./E por onde a gente passa/nós passamos a palavra./Cada rua cada praça/é o chão que o povo lavra/passaremos adiante/com passo firme e seguro./O passado é já bastante/vamos passar no futuro.

José Gomes Ferreira

"Não traio"

Não traio/Porque insistes?/Não traio.
Desde criança que meu Pai me ensinou/não haver tempestade/na terra ou nos céus/que não traga/a praga/de um falso herói/salvador da Cidade./Ou a esperança de um semideus/com um raio/na Mão/que tudo destrói/para pintar depois o sol e o Chão/de outra realidade./Mas nunca encontrarás traidores/entre os que sempre como eu sonhámos combustões/de novas flores/com pétalas de asas de liberdade/que só nascem e crescem regadas pelos gritos e lágrimas/das multidões.
Povo, continua!Não páres a tua tempestade.

Publicado por sandra em setembro 25, 2003 07:17 PM
Comentários