setembro 26, 2003

O NIILISMO NA HISTÓRIA: manifestações do niilismo ateu e religioso ao nível da História Contemporânea

A propósito dos acontecimentos verificados a 11 de Setembro de 2001 nos EUA (logo, relacionados com a proliferação do Terrorismo) e no âmbito de uma entrevista feita por Joseph Mace-Scaron e Alexis Lacroix, publicada no jornal francês Le Figaro, a 02 de Fevereiro de 2002, André Glucksmann, filósofo francês e estudioso da guerra faz, entre outras, as seguintes observações:

- "(...) A "guerra" de Bin Laden com o seu estilo particular tem de ser colocada na longa duração da guerra contemporânea.
Uma longa duração sob a luz crua de uma estatística: em 1914-18, houve 80 por cento de mortos em uniforme. Entre 1939 e 1945, apenas 50 por cento.
E desde o início da guerra fria até aos ataques de Bin Laden, há 30 milhões de mortos, unicamente em conflitos que não são confrontações de exércitos mas ataques armados contra populações desprotegidas (...).
Há quarenta e sete anos que se contam, portanto, 10 por cento de mortes em uniforme e 90 por cento de civis!
Quando Bin Laden diz: "É um acto de guerra", temos de lhe dar razão: o massacre dos inocentes, e já não a grande batalha entre exércitos, tornou-se a forma dominante de agressão guerreira".

- "A nossa paz é agora tão pouco perpétua que permanece sempre vulnerável a um homem com um cutter, a um atentado a uma central nuclear, etc.
A Europa desde dois últimos séculos cultivava a propensão para negar a morte, uma tendência um pouco louca, irresponsável, dominada pela obsessão da grande saúde, por esse dispositivo que Michel Foucault nomeou de "biopoder", a ideia de que uma ciência social poderia ajudar-nos a triunfar sobre a mortalidade.
A prova de Nova Iorque: o horizonte da nossa vulnerabilidade é inultrapassável. Vivemos a hora do niilismo, do face a face com um mal colectivo sempre a surgir".

- "Resumir o atentado de 11 de Setembro a um fanatismo religioso e afirmar que "é mesmo preciso acreditar em Deus para fazer semelhante coisa", é ter falta de sentido histórico, assim como de conhecimentos literários. (...)
Demasiados comentadores reduziram Dostoievsky a um "se Deus morreu, tudo é permitido", não viram que o furor niilista habita tanto aquele que acredita no Céu como o que não acredita nesse Céu. Dostoievsky mostra, pelo contrário, que o niilismo parte de "tudo é permitido" e que esse axioma governa o seu terrorismo. Com ou sem Deus, por ou contra o Estado, pensa-se que tudo é permitido".

- "O terrorismo niilista não é uma especificidade muçulmana. (...). O niilismo é o denominador comum das grandes ideologias exterminadoras que temos conhecido e conhecemos. Nazismo, comunismo e islamismo vestem diferentemente a mesma pulsão de aniquilamento, que permite também iniciativas mais individuais e locais".

- "O niilismo religioso reclama-se de um deus mais aniquilador do que criador; os niilistas sem Deus alinham com outros pretextos como a raça, a história, para se dedicarem do mesmo modo a fazer tábua rasa. As crenças variam, mas não o furor que as instrumentaliza".

- "O niilismo á agora um problema, não local mas mundial".

- "O niilismo triunfa quando perdemos o conhecimento do mal (...). [O niilismo] não manifesta apenas o gosto de fazer o mal, procede de uma complacência cúmplice. O niilismo é o mal tornado visível pelas consolações da ideologia ou as ilusões de uma miopia egoísta, ou o simples desejo de dormir sossegado (até ao estrondoso despertar)".

(AAVV- O mundo depois da guerra no Iraque. Lisboa: Relógio D'Água, 2003, p. 127-134. Sublinhado nosso).

Publicado por sandra em setembro 26, 2003 06:33 PM
Comentários

De facto o mundo mudou muito desde o 11 de Setembro. Para trás ficou o optimismo do Humanismo Universal, tão dinamizado Por Carl Sagan e outros. Quando voltam esses bons velhos tempos para continuarmos a caminhar orgulhosamente pela terra, confiantes da perenidade da nossa Obra? Para quando, estátuas colossais de Budas honrosos sem medo de ser dinamitadas? Queremos certamente de volta o engenho humano testemunhado em edifícios assombrosos que firam com a sua altura a imensidão dos céus...Vamos esperar o retorno do Sonho - e que seja breve

Bem haja

Afixado por: JMB em setembro 26, 2003 08:02 PM

JMB:

Começo por agradecer a tua colaboração, assim como a relevância do conteúdo do comentário desta resultante. Sobretudo pelas questões que colocas. A sua pertinência não deixa de ser uma realidade.
A questão do Optimismo e da ideia de Progresso foi, como penso saberes, muito vivida e sentida pelos Iluministas. Kant, por exemplo, remete-nos para a ideia de "Paz Perpétua"...
Quanto mais não seja pela época inquietante que estamos a viver, vale sempre a pena recuperarmos este tema, os seus alcances e limites. É, pois isso, que nos propomos desde já fazer (para além do que já dissemos em posts anteriores).
Conto com a tua presença desde já, e para o futuro.

Sandra

Afixado por: Sandra em setembro 27, 2003 10:53 AM

Já agora JBM, a que obra (ou obras) de Carl Sagan te referes, particularmente?

Sandra

Afixado por: Sandra em setembro 27, 2003 10:55 AM

Certamente que seria optimo para todos nós se a Humanidade estabilizasse Históricamente no positivismo quase pueril da Idade das "Luzes"...
No entanto, as 2 Grandes Guerras, e agora o flagelo do terrorismo, implicam uma recuperação desta atitute irremediavelmente com outros cuidados e expectativas.
Não me estava a referir a nenhum trabalho do Autor em particular.
Este publicita (de uma forma por vezes exaustiva, até o final da sua vida) que:
- Em Última análise, o Homem provém da mesma origem que qualquer outra estrutura Universal «somos feitos da mesma materia que as estrelas»
- Logo, o Homem não só é parte integrante do Cosmos como tambem é (pelo menos)1 resultado último da Evolução Universal
- Sendo que o Homem é dotado de uma consciencia pensante, este pode ser contemplado como (pelo menos) 1 consciencia do Universo: «O Universo consciente a contemplar-se a si próprio».
O autor insiste nesta ideia um pouco por todoas os trabalhos publicou, embora «Cosmos» (a série e o livro) sejam os mais conhecidos.
Este tambem fundou a «Planetary Society» e toda a ideologia que a acompanha.
Ao fazer tudo isto, carl Sagan define-se como um importante Humanista universal.

Afixado por: JMB em setembro 27, 2003 01:13 PM

JMB:

Mais uma vez o teu contributo foi muito positivo. Sim, de facto, as duas guerras mundiais destroçaram por completo a ideia de Progresso subjacente ao Iluminismo, assim como ao próprio Século XIX, em particular devido às evolução verificadas em termos de descobertas científicas e evolução tecnológica.
Por outro lado, a queda do Muro de Berlim e o desmoronar da ex-URSS abriram uma nova fase de euforia e do espalhar da ideia de "fim da História".
O 11 de Setembro fez-nos acordar de um eventual sono que viviamos. Estamos agora perante um facto consumado incontornável. O perigo é global, é imprevisível e pode atingir qualquer um de nós, a qualquer hora, onde quer que seja.
Tudo isto nos obriga a uma atenção maior e, sobretudo, a repensar o mundo em que vivemos e a olhar de forma realmente atenta para aqueles que são os Direitos Humanos. Mais: temos que olhar para eles relacionando-os com a evolução das relações internacionais, com as políticas pelas quais se optam e para os conceitos que a estas estão inerentes.

Sandra

Afixado por: Sandra em setembro 27, 2003 02:34 PM

Muito bom esse choque de idéias sobre o Niilismo e a Atualidade. Entretanto, ouso avançar: O Niilismo atual (e de sempre)é, como se sugere, uma contrapartida intelectual para reduzir a pressão que os conflitos complexos do mundo e, especialmente, da modernidade exercem sobre nós. É, a princípio, um inteligente escapismo, mas um escapismo. Entretanto, acredito, vai muito mais além disso. É um ATAQUE quase que deliberado contra o espírito humano, não o espírito como preconizado pelo Iluminismo, mas o espírito humano que se manifesta desde o Neolítico e, depois, na Grécia Antiga, no Budismo, no Cristianismo não fundamentalista (que infelizmente cresce nos EUA)no Renascentismo e na Revolução Científica. Vemos esse espírito especialmente a ética humana, a solidariedade, a criatividade nas artes em geral, na capacidade tanto de pensar como de sentir e na capacidade de perceber, de alguma forma, que somos parte de um todo e que somos mais do que átomos, células e neurônios. Somos, por assim dizer, seres racionais, emocionais e espirituais. E é essa harmonia entre esses três seres em cada um de nós que nos define, perante a História e, principalmente, perante nós, como seres humanos. Cada uma dessas "dimensões" (racional, emocional e espiritual) são importantes e nunca fugiremos delas, ao menos enquanto se entendo por Humanidade (até hoje). O Materialismo tende a reduzir o homem na dimensão racional. O Humanismo oscila entre o racional e o emocional - menos mal e razoável. O Idealismo religioso (especialmente o fundamentalista) ou exotérico tende reduzir-nos à dimensão espiritual.
Entretanto, o Niilismo tenta reduzir essas três dimensões do homem para uma outra deformada, nebulosa. Não é o que muitos dizem - é redução ao nada, ainda que tenha alguma verdade nisso. Acredito que seja uma redução a algo e esse algo é deliberadamente perverso (maldoso, como nos diria o próprio Nietzsche), que serve a um Poder que se forma, como nunca, para a dominação, para o prazer de si e dane-se (como nos diria Nietzsche em "Gaia Ciência"). Ele não tenta, na verdade, reduzir as três dimensões humanas em uma ou outra, mas reduzi-las todas. Quer reduzir para uma característica não-humana (Algo como o Super-Homem de Nietzsche e dos filmes e desenhos). Quer nos reduzir a uma condição não-humana para nos dominar e subjulgar. Conseguindo essa redução, até hoja nunca alcançada, será nossa mais profunda dominação - a morte do espírito humano mais elevado. Na verdade, a morte do próprio espírito humano.

Afixado por: Eduardo Almeida em outubro 13, 2004 04:45 PM