setembro 27, 2003

ARQUIVOS DE MITROKHIN (2)

Dando sequência à abordagem que fizemos em torno desta temática no passado dia 21, acrescentamos agora um excerto da apresentação à obra traduzida em português, em particular, relativo à participação do Partido Comunista Português na estratégia de intervenção soviética, escrito por José Pacheco Pereira.
Aponta, então, sobre esta matéria:

"As escassas informações sobre Portugal revelam o papel central do PCP como intermediário activo nas operações soviéticas de 1974-5. Tal não deve surpreender ninguém, dado não só as posições políticas do partido como a formação e mentalidade dos seus dirigentes na longa clandestinidade, como igualmente na dependência do PCP do apoio soviético. Embora com diferenças que vêm da sua história nacional, a própria formação, crescimento e identidade do PCP não é diferente nesta matéria dos partidos comunistas de modelo cominterniano.
Do ponto de vista simbólico, o relato que Mitrokhin dá do primeiro encontro de Álvaro Cunhal depois do 25 de Abril com o residente do KGB em Lisboa, Kuznetsov/ORLOV, é um retrato de qualidade cinematográfica. Não custa a imaginar Cunhal com medo das escutas, obcecado como sempre foi pela segurança, e imbuído até à medula por longos anos de clandestinidade e hábitos de segredo, sentado diante de uma mesa a escrever num papel (...) as perguntas e respostas de um diálogo por escrito, mais tenso do que se fosse falado, com o responsável lisboeta do KGB. (...)
Segundo Mitrokhin a conversa entre Cunhal e Kuznetsov teria sido essencialmente operacional. (...) Cunhal sabia que o que se passava em Portugal em 1974-5 já não era um evento periférico num país menor, com um partido ignorado e muitas vezes ofendido por comparação com os seus camaradas espanhóis. Agora, por um momento, a "revolução" portuguesa era a chave do movimento comunista internacional, substituindo e compensando a tragédia chilena.
Portugal, com o seu império colonial, é uma peça crucial para o espansionismo soviético que conhece nesses anos uma séria impulsão. Quer em África quer no "elo mais fraco da OTAN", Portugal está agora no centro do "grande jogo" e ele sabe que o PCP precisa rapidamente do know how soviético para garantir a "revolução" em Portugal e nas colónias. E quem detém esse conhecimento é os descendentes dos chekistas, o KGB. É o que ele está ali a fazer: a pedir a formação pelo KGB de especialistas em contra-espionagem que o PCP precisa, a pedir material de detecção das escutas e, naturalmente, a retribuir, em nome da solidariedade internacionalista com a pátria do socialismo, com as informações que podiam ser importantes para a URSS. O que é que se esperava de Cunhal, como aliás de outros membros da direcção como um PATRICK tão facilmente identificável, que sempre consideraram essa actividade como uma parte decisiva da luta de classes mundial? (...)".

(Ver: Arquivos de Mitrokhin. Lisboa: Dom Quixote, 2000. Sublinhado nosso.).

Publicado por sandra em setembro 27, 2003 03:51 PM
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