A propósito da dificuldade em conhecer o que foi ou tem sido realmente a evolução do processo histórico, logo, o conhecimento de objectos mais ou menos longínquos (e aqui estamos perante as questões da Objectividade e do Relativismo em História), escreveu António Manuel Hespanha a seguinte crónica na revista História de Fevereiro de 2002:
"PRÉ-COMPREENSÕES E ESPERTALHÕES
Desde Hans-Georg Gadamer e ao longo de toda a tradição da hermenêutica filosófica (M. Heidegger, E. Betti ou mesmo J. Habermas), tem sido dito e repetido que conhecer- e, em particular, conhecer objectos longínquos (...), não é tarefa nem trivial, nem garantida.
Sabe-se que o conhecimento é enquadrado (deformado, constituído; para, de degrau em degrau, ir dizendo coisas mais radicais) por concepções culturais (ou pessoais) muito profundas e razoavelmente inconscientes. É a isto que a literatura mais especializada chama pré-compreensão (...). Esta, sendo inevitável, pode ser controlada, no sentido de tornada consciente. E, neste sentido, ficamos pelo menos a saber (e damos disso notícia aos outros) que falamos a partir de convicções próprias (tanto no sentido pessoal, como no sentido cultural). Falamos a partir de nós, da nossa cultura, da nossa época.
Neste sentido, o conhecimento é sempre uma certa espécie de interpretação, um acto de atribuição de sentido à realidade (se tal coisa existe...). Sempre que o acto de conhecer tem como objecto outros actos de conhecer (ou de avaliar), os problemas redobram-se. Pois, neste momento, o que estamos a fazer é a interpretar interpretações. E, então, a questão não é apenas a de controlar a nossa pré-compreensão, mas ainda a de controlar (no sentido de torná-la explícita) as pré-compreensões das pessoas que estamos a estudar. (...)
Alguns dizem que qualquer destas tarefas é impossível de realizar e que, portanto, a história (e, em geral, o resto das ciências sociais) são discursos de tipo quase literário, que não pretendem a verdade, mas apenas a persuasão ou, simplesmente, o divertimento.
Confesso que tendo a pensar assim.
Mas nada disso autoriza que cada um se dispense de tentar distinguir, o mais claramente possível, o seu inevitável contributo pessoal (a sua visão do mundo) para os dados "objectivos estudados". (...)
Muito menos legítimo é, ainda, impingir as nossas convicções pessoais no discurso histórico (...) com a desculpa de que essas são as nossas convicções e de que delas não estamos dispostos a abdicar. Tal atitude é, pura e simplesmente, anti-científica e dogmática, excluindo os seus portadores do campo do discurso científico. (...)".
(HESPANHA, António Manuel- "Pré-compreensões e espertalhões". In: História. Nº 42. Fevereiro 2002, p. 14-15. Sublinhado nosso).
Publicado por sandra em setembro 29, 2003 01:20 PM