setembro 30, 2003

EM TORNO DA GUERRA COLONIAL (1961-1974)

A propósito de um texto escrito por Ana Sá Lopes na revista Pública e em contexto de exibição do filme de José Carlos de Oliveira, "Preto e Branco", escreveu no jornal Público de ontem o Major Mário Tomé, relativamente à Guerra Colonial o seguinte:

"(...) Grosso modo, Portugal, com 10 milhões de habitantes, fez um esforço de guerra em África cerca de nove vezes superior ao dos EUA, no Vietnam, com os seus 250 milhões de habitantes. Portugal mobilizou para a guerra colonial mais de 800 mil jovens, teve 8 mil mortos, 112.205 feridos e doentes, 4 mil deficientes físicos e estima-se que cerca de 100 mil doentes de stress de guerra. 40% do OE destinava-se à Defesa. A isto há que acrescentar a sangria de milhão e meio de emigrantes entre 60 e 74.
A Guiné estava perdida (...). Em Angola foi possível dividir o movimento independentista pelo que as tropas coloniais estavam em condições menos precárias. Mas não poderiam deixar de ser envolvidas pelo colapso geral, como foram.
Em Moçambique, nos meses que antecederam o 25 de Abril, os relatórios oficiais constatam recrudescimento das acções militares da Frelimo; alastramento impetuoso das acções de guerrilha às reservas de brancos e de caça. Beira, Vila Pery e Gorongosa; utilização de maios sofisticados (Strella e Foguetão de 122 mm) que, associados aos já melhores armamentos ligeiros (Kalashikov e RPG) conferem à Frelimo superioridade operacional e material cada vez mais evidente; fixação das nossas tropas na defesa de Cabora Bassa cuja inexpugnabilidade técnica é garantida pelo sorvedoiro mortal de efectivos e do esforço principal de guerra; deteriorização sem precedentes do moral das tropas coloniais e perda geral da vontade de combater; corte radical entre os colonos brancos do centro de Moçambique (zona estratégica vital) e o exército colonial. (...)
Os capitães não foram anjos justiceiros. Eram militares honestos, empenhados em cumprir a missão: ganhar a guerra, manter Portugal uno e indivisível do Minho a Timor. A deterioração alarmante da situação ao longo dos últimos anos obrigou-os a recorrer a outros manuais! ... Quando a brigada do reumático meteu a cabeça na areia face à derrota iminente e ao desastre anunciado, pior que o da Índia, viu os capitães à frente dos soldados rebelarem-se, abrirem as portas da desagregação de um exército já subvertido, sem meios, sem ânimo e sem iniciativa operacional, sem comando digno do nome, fustigado violentamente, à beira do colapso, derrotado; e proclamarem a vitória da liberdade e da independência. (...)
Finalmente: qual a condição de um exército em guerra, cujos capitães, as pedras fundamentais de comando em combate, e a generalidade dos soldados, se levantam contra a hierarquia e se recusam a combater?
O velho Clausewitz dizia que os objectivos da guerra são: colocar as forças militares inimigas incapazes de continuar o combate, garantir a ocupação do território e retirar ao inimigo a vontade de combater! Quem atingiu tais objectivos na guerra colonial?"

(Este artigo pode ser lido na íntegra em:
http://www.jornal.publico.pt/2003/09/29/EspacoPublico/O03.html)

Publicado por sandra em setembro 30, 2003 08:12 PM
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Jose Arruda

Afixado por: Jose Antonio Arruda em outubro 15, 2003 04:34 PM