Quase 30 anos passados sobre aquele em que se deu a sua mais intensa intervenção política (1975), Vasco Gonçalves continua a ser hoje uma figura controversa, provocando as mais diversas reacções. Positivas ou negativas, estas não deixaram nunca de existir e ainda hoje são uma realidade, em particular entre aqueles que viveram e acompanharam o processo revolucionário após o golpe de 25 de Abril de 1974.
Em contexto de guarda de testemunho e preservação da memória, o Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra e a Editorial de Notícias celebraram protocolo no sentido de efectivar e divulgar o projecto de História Oral da primeira instituição. Desse protocolo resultou uma obra que importa aqui deixar registada:
CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO 25 DE ABRIL- Vasco Gonçalves. Um general na revolução. Entrevista de Maria Manuela Cruzeiro. Lisboa: Editorial Notícias, 2002.
De facto, a leitura desta publicação permite conhecer a opinião do entrevistado sobre as mais variadas matérias, no âmbito do processo revolucionário, assim como conhecer aquele que foi o percurso da sua vida, mesmo antes, de chegar ao exercício do poder.
Manuela Cruzeiro, a entrevistadora, conduz as suas perguntas e o diálogo com um sentido determinado (como não poderia deixar de ser), elaborando a partir dai a seguintes organização da obra:
- Infância, adolescência, formação
De jovem idealista a engenheiro militar
- A entrada no Movimento dos Capitães
O coronel que não podia ser cabeça de cartaz
- A entrada na política
Um militar em São Bento ou feliz por breves meses
- 28 de Setembro
Crónica de uma ruptura anunciada
- Terceiro Governo Provisório
Sob o signo da Aliança Povo-MFA
- As medidas económico-sociais
Salvar a economia, salvar a Revolução
- 11 de Março
O sonho do socialismo português
- Verão Quente
A realidade para além dos documentos
- Quarto Governo Provisório
Via eleitoral/via revolucionária- conciliação ou confronto
- Documento dos Nove
A eterna questão das vanguardas
- Quinto Governo Provisório
A corrida contra o tempo
- O fim da actividade política
Todos os caminhos vão dar a Tancos
- A interferência estrangeira
Uma Revolução desprotegida
- 25 de Novembro
O último combate
- Um quase epílogo
Uma vida cortada ao meio
A importância do conteúdo da entrevista, por poder permitir o mais amplo debate, com vozes concordantes e discordantes, leva a que em posts futuros apresentemos alguns excertos da totalidade componente. Estes incidirão, por questões de economia de espaço e por critérios em termos de escolha, no período após o 25 de Abril, em particular sobre o período de chefia do Governo.
Para reflexão uma questão: terá existido o "Gonçalvismo?"
sandra, voltei... e fi-lo para ver, uma vez mais, as diversas considerações e propostas que fazes no "ambito" da História. Agrada-me, já o referi, que alguém como tu existas e que mantenha este blog "divulgativo"...
conheço a obra que referes, aliás incerida no projecto de Historia Oral liderado pela Manuela Cruzeiro na U. Coimbra, e gostaria de postrar as minhas dúvidas em relação à validade "absoluta" destes conjuntos de entrevistas.
Aliás, tais posturas "documentais" teem sido seguidas por parte dos principais intervenientes das nossa história contemporanea (ver, por exemplo e em complemento, as entrevistas da Maria Joáo Avillez com Mario Soares, etc) e, ao serem encaradas como "documentos" ou fontes históricas podem ser perigosas.
Ou seja, tenho muitas dificuldades em tomar copmo certo as declarações desses intervenientes quando postos em circunstancias preveligiadas de "reinventarem" não só a sua história pessoal como a propria história recente de Portugal.
Deixo a "provocação", esperando continuar a seguir o teu bom trabalho.
Um Abraço
Zeka
Afixado por: zeka em outubro 3, 2003 11:25 PMZeka:
os problemas que levantas são pertinentes e, como podes imaginar, também já se me colocaram. De qualquer forma, independemente da grande carga de subjectividade inerente, a vertente da História Oral é algo que não se pode desperdiçar. Sobretudo ao nível de determinados períodos da História. Caberá ao historiador, por um lado, e ao leitor informado, por outro, filtrar essa informação e assumir uma postura crítica. Postura, essa, obviamente, não resultante de preconceitos, mas antes do disponibilizado em outra tipologia de documentos. A comparação e complementaridade são fundamentais.
Se bem que já fosse a minha ideia fazê-lo, este teu comentário fez acelerar, em mim, o propósito de avançar com um post (ou mais) específico(s) sobre a História Oral.
Volta sempre,
Sandra
Afixado por: Sandra em outubro 4, 2003 09:45 AM Soy investigador y me gustarìa recibir informaciòn
en referencia a los hechos del 25 de abril en cues
tion y a Don Vasco en particular.
atte.
Infelizmente assiste-se continuadamente a um processo de tentativa de "manipulação histórica" em tudo o que se refere aos intervenientes mais conhecidos do golpe de Estado do 25 de Abril e das suas consequências para Portugal, para os portugueses e para o seu futuro. São esses personagens que continuadamente tentam fixar para a posteridade uma visão manipuladora de toda a realidade, inventando. mentindo despudoradamente, se auto-elogiando, tudo feito através da colaboração de inúmeros escribas de serviço que se prestam a esse ignóbil trabalho. Esses "libertadores" têm tanto medo da verdade que cercearam à juventude o direito de saberem e conhecerem a realidade histórica dos últimos 50 anos, isenta de interpretações subjetivas e parciais, enchendo-lhes a cabeça apenas com visões catastróficas e mentirosas sobre a realidade do Portugal dessa época. Por isso a juventude tem tanta "fome" de saber e conhecer um período que pressente foi muito importante como afirmação de Portugal no Mundo. Esquecem-se esses "libertadores" que os verdadeiros Homens Notáveis não precisam de serem eles próprios a escreverem ou ditarem sobre a sua vida e obra. São os outros, é a posteridade, que sente necessidade de conhecer a vida e obra de quem se notabilizou. Pobres coitados, esses que pressentem qual o lugar que históricamente irão ocupar ...e teimam em não o aceitar!
Afixado por: Luis do Brasil em setembro 21, 2004 04:10 PM