Datado de 1993, um trabalho de José Pacheco Pereira que aborda, simultaneamente com qualidade e síntese, as vertentes caracterizadoras da vivência clandestina daqueles que pertenciam e colaboravam com o Partido Comunista Português (PCP) nos tempos da Ditadura.
A sombra. Estudo sobre a clandestinidade comunista é ainda um trabalho com preocupações de esclarecimento de conceitos e de abordagem global em torno da clandestinidade comunista.
Apresenta-se a obra organizada da seguinte forma:
1. Introdução
2. Clandestinidade
- Clandestino, clandestinidade
- Clandestinidade comunista
- Clandestinidade comunista em Portugal
3. Identidade clandestina
4. Ciclo clandestino
- Recrutamento
- Pseudónimo
- Carreira
- "Mergulhar"
- Teatro clandestino e performance
- "Companheiras"
- Espaço: casa e quarto
- Espaço: rua, movimento, transportes
- Tempo clandestino
- Entropia e disfunções
- Crianças
- Acidentes
- Entropia das pessoas e das coisas
- Prisão
Naquela que é a sua "Introdução" escreve o autor:
"O objectivo deste trabalho é estudar a clandestinidade comunista, e não a clandestinidade em geral. Partiu-se da ideia inicial de que a clandestinidade comunista representa um tipo ideal da actividade clandestina e que ninguém melhor do que os partidos comunistas tinha no nosso século desenvolvido esse modo de estar político.
Aquilo que melhor caracteriza a clandestinidade comunista é ela emanar de uma cultura política particular e ser mais um modo de vida e de política do que um instrumento funcional para obter determinados fins revolucionários ou resultar inevitavelmente da repressão ao partido comunista.
Para estudar a clandestinidade comunista a experiência portuguesa é excepcional. Em poucos países europeus se gerou um longo processo de 48 anos de uma vida clandestina com tão fortes conotações simbólicas. Dela resultou um número considerável de testemunhos e um tipo de produção literária quase autobiográfica, em grande parte desconhecido do público em geral, mas consumido nos círculos familiares e próximos daqueles que passaram pela vida clandestina e, de um modo mais geral, na área de influência ideológica do PCP.
O número de pessoas que tiveram, de perto ou de longe, a experiência da clandestinidade é, em Portugal, significativo dentro dos meios políticos da oposição ao regime autoritário anterior ao 25 de Abril de 1974. Acresce que essas pessoas estão não só a diminuir significativamente, como estão a perder-se as referências históricas, culturais, políticas e ideológicas que enquadravam essa experiência e lhe deram sentido. O mundo do comunismo, mundial e português, representa cada vez mais uma referência antropológica do passado. Pareceu-me, por isso, que a compreensão um pouco mais aprofundada da vida clandestina iluminava algo da história portuguesa deste século e que uma primeira aproximação interdisciplinar podia ser feita- o que se tenta em seguida" (p. 11-12)
Entendemos que, com a obra em questão, os objectivos do autor foram conseguidos. Felizmente, e desde o ano de 1993, outras obras têm sido publicadas dando a conhecer experiências da clandestinidade, sendo que a elas já fizemos referência neste nosso blog.
Consideramos, também, e para além disto, que a clandestinidade é uma área de pesquisa e investigação que continua com grandes possibilidades. Porque há sempre algo que não foi dito. Porque há sempre algo que ainda não foi buscado à memória.
Referência bibliográfica:
PEREIRA, José Pacheco- A sombra. Estudo sobre a clandestinidade comunista. Lisboa: Gradiva, 1993.
Publicado por sandra em outubro 5, 2003 10:24 AMSou jornalista e gostaria de poder conversar com algumas pessoas que, antes do 25 de Abril, tiveram de se refugiar na clandestinidade.
O meu contacto de e-mail é: catarinaagps@yahoo.com
Grata pela atenção,
Catarina Pereira da Silva
Afixado por: Catarina Pereira da Silva em maio 18, 2004 03:08 PM