Naquela que é a sua obra intitulada O homem revoltado (Ensaio, 1951), e a propósito das revoltas e revoluções na História, considera o autor o seguinte:
"(...) Cada revolta é nostalgia de inocência e apelo ao ser. Mas a nostalgia acaba um dia por pegar em armas e assume a culpabilidade total, isto é: o crime e a violência. As revoltas servis, as revoluções regicidas e as do século XX, aceitaram assim conscientemente uma culpabilidade cada vez maior na medida em que elas se propunham instaurar uma liberdade cada vez mais total. (...)
(...), a história dos homens é, num sentido, a soma das suas sucessivas revoltas. (...) Aquilo a que devotamente chamavam no século XIX a emancipação progressiva do género humano, visto de fora, surge aos nossos olhos como uma série ininterrupta de revoltas que se ultrapassam umas às outras e se esforçam por encontrar a sua forma na ideia, mas que ainda não chegaram à revolução definitiva, que viria a estabilizar tudo, no céu e à superficie da terra. Mais do que uma verdadeira emancipação, o exame superficial levaria a uma afirmação do homem por ele próprio (...). Se se verificasse apenas uma revolução, a história acabaria. Haveria unidade feliz e morte satisfeita. Eis o motivo por que todos os revolucionários visam finalmente a unidade do mundo e agem como se acreditassem no fim da história. (...). Como o movimento de revolta desemboca no "tudo ou nada", (...), o movimento revolucionário do século XX, tendo atingido as consequências mais claras da sua lógica, exige, de armas na mão, a totalidade histórica. A revolta é, nessa altura, intimada, sob pena de acusação de fútil ou de desactualizada, a tornar-se revolucionária. Já não se trata, para o revoltado, de se deificar a si próprio como Stirner, ou de se salvar individualmente pela atitude. Trata-se de divinizar a espécie, como Nietzsche, e de realizar o seu ideal de super-humanidade, a fim de assegurar a salvação de todos (...).
A maior parte das revoluções adquire a sua forma e a sua originalidade por meio do crime. Todas ou quase todas foram homicidas. Mas algumas praticaram, além disso o regicídio e o deicídio. (...)".
(CAMUS, Albert- O homem revoltado. Lisboa: Livros do Brasil, 2003, p. 131-134).
Registe-se que com este ensaio, Camus defende que só em estado de revolta o Homem pode dar sentido a um mundo dominado pelo sem sentido.____________________
Sobre Albert Camus: nasceu na Argélia a 07 de Novembro de 1913 e morreu num acidente de automóvel a caminho de Paris em Janeiro de 1960. Licenciado em Filosofia foi professor e praticou jornalismo. Publicou várias obras (para além da supra-referenciada): O Reverso e o Direito, Núpcias, Mito de Sísifo, O Verão, A Queda, O Estrangeiro, A Peste, A Morte Feliz, Calígula, O Equívoco, Estado de Sítio. Escreveu também vários artigos de imprensa e notas diarísticas.
Camus é ainda considerado um representante do Existencialismo francês.
só em estado de revolta o Homem pode dar sentido a um mundo dominado pelo sem sentido - uma frase poderosa, sem dúvida!
Afixado por: Luis em outubro 6, 2003 04:36 PMUau!
Folgo em saber que já estás em posse de "O Homem Revoltado" e que já o estás a ler!
Vai dizendo as tuas impressões sobre o mesmo ;) :)
Afixado por: Paulo Silva em outubro 7, 2003 06:54 PMPaulo:
eu não disse que o título tinha ficado registado? Pois é, já o tenho em meu poder e já comecei a sua leitura e exploração.
Claro que sim. Claro que te vou pondo ao corrente!
Sandra :))
Afixado por: Sandra em outubro 7, 2003 07:02 PM