Num contexto de discussão em torno de uma futura Constituição Europeia, apresentamos um primeiro texto onde a Europa é considerada. A sua autoria é de Edgar Morin:
"Na origem da Europa não há um princípio fundador original. O princípio grego e o princípio latino vêm da sua periferia e são-lhe anteriores; o princípio cristão vem da Ásia e só desabrochará na Europa nos fins do seu primeiro milénio. Todos estes princípios terão de ser agitados, sacudidos, misturados, na barafunda dos povos invadidos, invasores, latinizados, germanizados, eslavizados, antes mesmo de se associarem e de se oporem.
Se procurarmos a essência da Europa, mais não encontraremos do que um "espírito europeu" evanescente a asseptizado. Acreditar desvendar o seu autêntico atributo é ocultar um atributo contrário, não menos europeu. Deste modo, se a Europa é o direito, é também a força; se é a democracia, é também a opressão, se é a espiritualidade, é também a materialidade; se é a moderação, é também a ubris, a desmesura; se é a razão é também o mito, incluindo no seio da ideia de razão.
A Europa é uma noção incerta, nascida da barafunda, com fronteiras indefinidas, de geometria variável, sofrendo deslizes, rupturas, metamorfoses. Trata-se, por conseguinte, de interrogar a ideia de Europa justamente naquilo que ela tem de incerto, de turvo, de contraditório, para tentar extrair daí a identidade complexa".
(MORIN, Edgar- Pensar a Europa. Lisboa: Publicações Europa-América. 1988, p. 33. Sublinhado nosso.).
Publicado por sandra em outubro 9, 2003 11:06 PMExcelente excerto, Sandra.
Não sei se já leste a Montanha Mágica, mas neste livro há imensas e intensas discussões sobre o tema da Europa, em que travam guerra ideias ocidentais (a razão - personagem Settembrini) conta ideias orientais (o espirito - personagem Naphta). Essas discussões têm particular incidência entre as páginas 400 a 500 do livro.
De resto, não sei mais o que dizer, não tenho ideias bem definidas relativamente a este tempo, mas é um facto que eu sinto que a "Nostalgia da Europa", como Kundera o define no post que coloquei no Blog do Citador, é algo real - mas é apenas uma (muito) modesta opinião pessoal
Afixado por: Paulo Silva em outubro 10, 2003 07:44 AM