Equador é uma obra que nos transporta no tempo. Que nos transporta a Portugal e a S. Tomé e Príncipe de princípios do século XX.
O autor viveu-a enquando ia procedendo à sua redacção. Viveu-a enquanto foi construindo os personagens e apresentando os lugares. Viveu-a enquanto foi fazendo pesquisa. Porque num trabalho deste género (romance histórico) é sempre preciso fazer pesquisa por mais liberdade que se assuma e tenha perante as realidades do passado.
Para entrarmos e conhecermos melhor aquele que foi o mundo do autor- Miguel Sousa Tavares- e o que esteve nos bastidores da obra em questão, apresentamos excertos de uma entrevista vinda a público na revista Magazine Artes, do passado mês de Agosto.
Mas é o trabalho da escrita que mais lhe interessa quando conta uma história?
Interessa, mas não é o fundamental. Pelo menos neste caso- não posso falar como pessoa com grande experiência nisto porque só tenho o Equador. Aqui, o fundamental foi contar uma história com força, caracterizar as personagens com força, torná-la verosímil, integrar muitas informações de carácter histórico, fazendo um permanente jogo de espelhos com o leitor, entre o que era real e factual e aquilo que foi inventado por mim, o que não aconteceu e poderia ter acontecido. (...)
E esta tem um ponto de partida verídico. A mentira ou a ficção, se quiser, vem depois. Foi a realidade que o fez partir para a ficção, isto é, foi a informação de que havia trabalho escravo em S. Tomé, numa altura em que não era suposto haver, ou pelo contrário, foi a ideia daquele homem, meio perdido, num país perdido, a quem é pedida uma missão que se viria a revelar impossível?
Não, o homem é inventado por mim. Na génese do romance estão duas coisas: ter tido acesso a um livro que relatava as condições de trabalho nas roças e as acusações que os ingleses nos faziam sobre o trabalho escravo e, ao mesmo tempo, ter conhecido S. Tomé e Príncipe e pensar que era um décor fabuloso, não só para um livro, mas para um filme. Acho que o meu livro reflecte muito a perspectiva de quem está a escrever quase como quem está a ver um filme. Isto era de tal maneira impressionante que na revisão eu deparava-me com coisas como estar a descrever uma cena em que os personagens estão a jantar dentro de casa e saem para o terraço e eu, em vez de escrever "saem lá para fora", tinha escrito "saem cá para fora", que era o local onde estaria a câmara se aquilo fosse um filme. Havia erros de quem estava constantemente a tentar ver um filme. Gosto, como leitor, dos livros em que quase se vê. Ver o ambiente, ver as personagens. Foi a base histórica, que achei curiosa, mas foi, sobretudo, o conhecimento de S. Tomé, uma terra extraordinariamente inspirativa e cinematográfica.
Voltando ao romance e à sua génese. Há ali a descrição de um país, que é o nosso, que está perdido, sem sentido, sem identidade, sem rumo e há um paralelismo com o que se passa hoje. Aquela figura, o Luís Bernardo, materializa essa deriva. Essa reflexão sobre o país foi intencional, sobretudo sabendo que o autor é um homem desiludido com o seu país?
Não, não quis de maneira nenhuma estabelecer paralelos com o que se passa hoje em dia. Acontece que o país continua basicamente o que era: o país mais atrasado da Europa, mais iletrado, mais provinciano a nível de mentalidades. Mesmo a elite é provinciana, tirando os que saíram, os que se exilaram. Quando o Eça escreve trinta anos antes dos acontecimentos do meu livro sobre o país, ele tem a percepção aguda do provincianismo de Portugal porque viveu lá fora muitos anos. É alguém que vê Portugal de fora. N' O Primo Basílio tem uma frase que acho genial. Põe o Primo Basílio, que vivia em Paris, a exclamar: "Que pasmaceira de terra em que não há onde comer uma asa de perdiz e beber uma taça de champanhe à meia-noite." No tempo em que decorre o meu livro, achavam que decapitando a monarquia, por golpes de mágicos, o país fechado sobre si mesmo, definitivamente provinciano, passava a ser diferente. Não aconteceu. Depois teve 50 anos de ditadura essencialmente provinciana e saloia e nós, verdadeiramente, estagnámos. Portanto, a constatação que o país então era igual a hoje é um bocado engraçada, muita gente me fala nisso a partir do meu livro. Eu não a quis intencional. Portugal era assim, o que eu li sobre a altura mostrava-o. Ao ler a Ilustração Portuguesa, via-se que tudo aquilo era pindérico, faz chorar as pedras da calçada, toda aquela sociedade "soi disant" aristocrática e a burguesia emergente, o que eles fazem, as suas preocupação, é uma coisa de horizontes pequeninos.
Luís Bernardo, o protagonista que se julga cosmopolita, reflecte esse provincianismo.
Reflecte. Ele acha que pertence a uma elite, às elites que nos governam, as elites do mundo, e, no fundo, foi a Paris e não conhece mais nada. Mesmo de Portugal, pouco mais conhece do que Lisboa e o Buçaco e está convencido que tem o mundo na barriga. Não tem.
O que se nota quando é colocado ao lado de David, o inglês nomeado consul em S. Tomé...
...que era um homem do Império Britânico, um homem da Índia. Vinha de outra dimensão, a todos os níveis e, sobretudo, quando comparado com S. Tomé. A emigração em S. Tomé, na altura, era culturalmente do nível mais baixo que tínhamos no país, enquanto que a Índia não. A Índia foi um escol de serviço de gerações inteiras de ingleses até ao Churchill.
E como é deixar de contar histórias de personagens reais e construir personagens, dar-lhes densidade, uma vida... Essa personagem foi difícil?
Nem sequer sei se resolvi bem isso. Já vi dizerem que sim, e já vi dizerem que não. No personagem central, o Luís Bernardo, construí dele deliberadamente e de início, a figura de um diletante, intelectual, mais culto do que era normal no seu tempo- inclusivamente falando inglês-, um homem completamente livre, habituado a uma vida cómoda. Quando o transponho para a África, para S. Tomé e Príncipe, ele vai-se transformando aos poucos. Eu próprio não sabia muito bem em que é que ele se iria transformando, tinha uma ideia, e tentei situar-me no lugar dele, desembarcar em S. Tomé como ele desembarcou, sozinho, com as malas, ir para aquela casa que tinha não sei quantos criados- o Sebastião, a Doroteia-, num meio onde todos desconfiavam dele, com três discos de ópera que era os que havia na altura. (...)
Aquele é um homem transformado pela solidão, não é?
Pela solidão, pela natureza da missão e por um sentido de missão e de responsabilidade que descobre quando lá chega- porque nunca antes tinha tido-, com a dureza das condições, com a hostilidade que nota à volta dele e muito pela solidão. Há uma cena no fim, quando convida os criados todos para jantarem com ele no Natal e eles não querem e ele diz: "... vocês são, quer queiram quer não, a única família que eu tenho no mundo."
Quem lê o livro reconhece um grande trabalho de documentação que culminou noutro também enorme: a revisão. Foram muitos os factos verdadeiros a confirmar...
E passaram muitos erros ainda. Alguns inexplicáveis, outros foram erros de cansaço, como trocar o nome ao rei de Inglaterra, outros ainda de ciência, para os quais algumas pessoas me chamaram a atenção, como os barcos ingleses com a sigla HMS à frente do nome e que eu achei que se aplicava a todos os barcos ingleses, mas que afinal só se aplica à marinha de guerra e não à marinha mercante.
Apesar de estar com uma investigadora ao seu lado.
Sim, mas eram muitas informações. É rara a página que não tem, de uma forma que passa quase despercebida ao leitor, uma ou duas coisas que foram resultado de um grande trabalho de investigação. Andámos a ver os registos dos telefones em S. Tomé e Príncipe para descobrir os nomes das ruas da cidade que, entretanto, mudaram com a República e depois com a chegada da independência, para descobrir se já havia luz eléctrica ou não, ver as pautas das importações todas de S. Tomé. (...)
Você conheceu as ilhas de S. Tomé e Príncipe recentemente, mas no livro teve de recuar um século. Como é que fez aquela reconstituição tão precisa?
Nada de substancial mudou. O palácio do Governador que é hoje o do Presidente da República, existia, os correios, o tribunal, a catedral, tudo aquilo existia.
Mas há as ruas e as roças...
Já existiam e as roças continuam, só que muito mais degradadas. Visitei quase todas as roças de S. Tomé e depois fui checar as que já existiam, porque poderiam ter mudado de nome, mas ao contrário das nossas, mantiveram os nomes. Felizmente, porque os nomes das roças são lindíssimos. Há lá uma parte que dedico só aos nomes das roças que foi a coisa que mais me fascinou. Nova Esperança, Nova Angústia...
Publicado por sandra em outubro 11, 2003 06:28 PMObrigado pelos teus comentários Sandra. Por certo, é para mentes como a tua que eu escrevo.
Obrigado também pela referência ao Equador. Vou acompanhar o teu blog antes de decidir-me a ler as experiências escritas e revistas do Miguel. Um alimento espiritual, já em falta.
Sorrisos de mim para ti...
Afixado por: Vitor em outubro 12, 2003 04:31 AMPenso que vale sempre a pena ler o Miguel. Ainda mais agora, nesta sua nova experiência.
Sandra :)
Afixado por: Sandra em outubro 12, 2003 10:45 AMo MST "entrou-me" na vida à vários anos, quando era ainda uma menina e ficava presa ao ecrã a ouvir as entrevistas polítcas que então fazia na RTP. nunca soube muito bem explicar o fascínio que aquela personagem criava em mim, um misto de encantamento e sonho. a vontade de o ler, de o conhecer cresecu comigo à força de crónicas e relatos de viagem. o Miguel é também responsável por um episódio de amor na minha vida. foi adimração partilhada que nos uniu um dia. também isso lhe devo e ainda bem que há mais pessoas que comigo partilham aquilo que considero ser, tão somente: fascinação. obrigada
Afixado por: pilar amorim em outubro 31, 2003 01:12 PMTá legal o site, mas na verdade eu nao achei o que precisava. Gostaria que falasse mais da cultura e tradições do país. Obrigada
Afixado por: luísa em outubro 14, 2004 12:22 AMtu ee una mocrelha pssando information false.vai vtc sua fdp.
Afixado por: mister, mister,mister.MISTER ? em novembro 13, 2004 09:09 PMtu ee una mocrelha pssando information false.vai vtc sua fdp.
Afixado por: mister, mister,mister.MISTER ? em novembro 13, 2004 09:14 PM