No mercado português surge, em Março de 2001, pela responsabilidade da Editorial Notícias, o livro de Günter Grass, O meu século.
Organizando-se numa centena de capítulos, cada um deles com um narrador diferente e respeitante a cada ano do século XX, a obra oferece ao leitor acontecimentos relevantes passados ao nível da política, da ciência, das guerras, debruçando-se igualmente sobre o quotidiano, hábitos e valores.
O autor: Günter Grass nasceu em Danzig, actual Gdansk, na Polónia no ano de 1927. Após a 2ª Guerra Mundial estuda artes gráficas e escultura. Em 1959 consegue a notoriedade internacional com o seu romance intitulado O tambor. Publica posteriormente outras obras: O Gato e o Rato (1961) e O cão de Hitler (1963).
Em termos políticos desempenhou um papel de relevo junto do SPD e foi uma figura próxima de Willy Brandt.
Mais recentemente publicou: A ratazana (1986), Mau agoiro (1992), Uma longa história (1995).
Foi Prémio Nobel da Literatura em 1999.
Em jeito de ilustração da obra aqui em questão, apresentamos excerto do capítulo respeitante ao ano de 1934, ano seguinte a Hitler se ter tornado Chanceler da Alemanha.
Referência bibliográfica:
GRASS, Günter- O meu século. Editorial Notícias, 2001.
1934
Aqui entre nós: este caso devia ter sido resolvido de forma mais precisa. Deixei-me levar demasiado por motivos de ordem pessoal. A balbúrdia começou com a precipitada mudança de posto, provocada pelo golpe de Röhm: transferidos de Dachau, ocupámos a 5 de Julho o campo de concentração de Oranienburg, pouco depois de um verdadeiro bando de canalhas das SA ter sido rendido por um comando da guarda pessoal de Hitler, aliás camaradas, que poucos dias antes tinham acabado, em Wiessee e não só, com a clique de Röhm. Ainda visivelmente esgotados, fizeram o relato da "Noite das Facas Longas" e entregaram-nos o estaminé mais alguns subchefes das SA que era suposto ajudarem-nos na parte burocrática da rendição, mas que se revelaram totalmente inoperantes.
Um desses arruaceiros (...) mandou apresentarem-se os prisioneiros confiados à nossa guarda e ordenou aos judeus entre eles que fizessem uma formatura à parte.
Apenas uma escassa dúzia de criaturas, das quais uma sobressaía particularmente. Em todo o caso, reconheci Mühsam de imediato. Inconfundível, a cara dele. Embora na cadeia de Brandeburgo tenham rapado a barba ao antigo desordeiro dos sovietes e aliás também lhe tenham dado uma trepa a valer, ainda dele restava que chegasse. Aqui entre nós: um anarquista da espécie delicada e ainda por cima um típico literato de café que durante os meus primeiros anos em Munique fazia uma figura mais cómica que outra coisa, precisamente como poeta e agitador da liberdade absoluta, mas é claro, sobretudo do amor livre. Agora era um miserável farrapo que estava ali à minha frente, com quem era quase impossível falar, porque ensurdecera. Como justificação apontava para as orelhas, em parte supurando, em parte cobertas de crostas, e fazia um esgar de riso em ar de desculpa.
Na qualidade de oficial-às-ordens do chefe de Brigada Eicke, descrevi-lhe Erich Mühsam por um lado como inofensivo, por outro como particularmente perigoso, porque até os comunistas lhe teriam receado a verbosidade agitadora: "Esse, em Moscovo, já tinha sido liquidado há muito tempo. (...)
Aqui entre nós: eu sempre tinha uns certos escrúpulos de me aproximar mais do que necessário daquele judeu. Além disso, durante o interrogatório ele manteve a linha de forma espantosa. A cada pergunta respondia com versos de poemas, obviamente de sua autoria, mas também de Schiller: "...e não sacrifiqueis a vida..." Embora lhe faltassem todos os dentes da frente, recitava como que pronto para entrar em palco. Aquilo, por um lado, era cómico, mas por outro...Além disso incomodavam-me as lunetas naquele nariz de judeu...Mais ainda as falhas em ambas as lentes... E sorria infalivelmente depois de cada citação. (...)