Recordemos:
"Que cada uma de nós se lembre que lá longe, nas províncias ultramarinas, há rapazes que deixaram tudo: mulheres, filhos, mães, noivas e o seu trabalho, o seu interesse, tudo enfim, para cumprirem o seu dever de soldados. É preciso que as mulheres portuguesas se compenetrem da sua missão, e assim como eles estão cumprindo o seu dever, lutando pela nossa querida Pátria, também vós tendes para cumprir o vosso, lutando pelo bem-estar dos nossos soldados- luta essa bem pequenina, pois uma só palavra, um pouco de conforto moral basta para levar alguma felicidade aos que estão contribuindo para a defesa da integridade do nosso Portugal.
OFEREÇAM-SE PARA MADRINHAS DE GUERRA. MANDEM O VOSSO NOME E A VOSSA MORADA PARA A SEDE DO MOVIMENTO NACIONAL FEMININO".
("Madrinhas de guerra". In: Revista Presença. Nº 1, 1963, p. 36-37).
"Querido militar:
(...) Lutas pela paz da tua família. Lutas para que, em tua casa, todos possam viver sem terror. Lutas para que os rapazinhos de agora tenham aquela Pátria grande e livre que herdaste!
Tu enfrentas de armas na mão, orgulhosamente, o inimigo que pretende roubar a segurança do teu lar!
Obrigada, soldado!
SAÚDA-TE A TUA MADRINHA".
("Querido Militar". In: Revista Mensagem. Nº 2, 1962, p. 2).
Apresentando-se o Movimento Nacional Feminino (1961-1974) como uma estrutura de mulheres criada e organizada para apoiar os militares, as suas famílias e o esforço do Estado Português em África, fácil será entender quem foram as "Madrinhas de guerra".
De facto, a secção do Movimento com este nome, incluia nos seus registos e disponibilizava para apoio aos soldados nas colónias, mulheres cuja vontade para o serviço resultava de uma selecção que obedecia aos seguintes itens: nacionalidade portuguesa, maiores de 21 anos, moral idónea, espírito patriótico, coragem, capacidade de sacrifício, confiança na vitória e capacidade de transmissão dessa ideia.
Às "Madrinhas de guerra" era pedido/estipulado a distracção do(s) seus(s) afilhados através da troca de correspondência, em que na mesma fosse expresso a transmissão de coragem, confiança, orgulho pela prestação de um importante serviço à Pátria.
Por outro lado, deviam também estabelecer contactos com a(s) família(s) desse(s) soldado(s), amparando-a(s) em tudo o que fosse possível, nomeadamente em termos morais e materiais.
Registe-se que o pedido dos soldados de "Madrinhas de Guerra" devia fazer-se directamente para a Comissão Central do Serviço Nacional de Madrinhas, onde era devidamente analisado e correspondido de acordo com as possibilidades. Salienta-se que as madrinhas deviam ser da mesma região, cidade ou povoação vizinha do(s) afilhado(s), por questões de afinidade, conhecimento da família e mais fácil prestação de apoio.
Importa dizer que o aumento entretanto verificado do número de pedidos tornou notória a insuficiência de inscrições por parte de voluntárias, explicando-se o tipo de conteúdo que apresentámos no primeiro texto anteriormente transcrito.
Vale a pena deixar claro que as "Madrinhas de Guerra" e aquilo que significavam, pelo tipo de trabalho desenvolvido, foram muito importantes em termos de apoio psicológico àqueles que estava longe de sua casa e dos seus familiares. Significavam algo mais do que o ambiente de combate vivido diariamente. Uma carta recebida e uma carta escrita eram, pois, fundamentais num contexto como aquele em que milhares de homens (jovens) se encontravam. Significavam muito. Ilusões, também. Mas isso fazia parte e mostrava-se de uma relevância extrema.
As próprias voluntárias acabavam por se envolver com as situações. Umas, certamente mais do que outras, acompanhavam com ansiedade o percurso africano do(s) seus(s) afilhado(s) e acabavam por viver intensamente a situação, juntamente com a(s) família(s) a que ele(s) pertencia(m).
Algumas destas mulheres estão ainda hoje vivas. Algumas destas mulheres falaram já do que foi esse seu trabalho. E confirmam. Confirmam o que sentiram, também elas, embora diferentemente, num contexto de guerra.
Um pouco mais sobre o Movimento Nacional Feminino:
Criação: por parte de um pequeno grupo de mulheres pertencentes, pelos mais variados laços, às elites políticas, económicas e culturais do Portugal do Estado Novo. Outras, acabaram por se lhes juntar depois, engrossando o seu número total.
Presidente: Cecília Supico Pinto (durante os anos de existência do Movimento)
Áreas de intervenção do Movimento:
- Administrativas:
a) Secretaria
b) Tesouraria
- Apoio Social:
a) Secção de embarque
b) Secção das madrinhas de guerra
c) Serviço de acolhimento de feridos e doentes
d) Secção de visitas aos hospitais
e) Secção de empregos
f) Secção de assistência à família
g) Serviço de urgência
- Apoio Material:
a) Secção de aerogramas
b) Secção de passagens
c) Bibliotecas
d) Secção de apoio aos oficiais milicianos
e) Auxílio aos capitães militares e missões
f) Secção de farmácia
g) Secção de encomendas
h) Secção de lembranças individuais e colectivas;
i) Secção de contencioso
- Informação
a) Secção de participação de baixas
b) Secção de notícias
c) Secção de informação e divulgação
- Publicações próprias:
a) Revista Presença
b) Revista Mensagem
c) Revista Guerrilha
d) Revista Movimento
não poderia nunca contestar a acção psicológica que este movimento teve, nem sequer a acção material, positiva ou negativa, caberá aos visados responder - nunca às madrinhas!
as comemorações do dia do combatente, que servem saudosistas da integridade da nação, são em sentido estrito dignas e em sentido lato ofensas ao sentido humano que se é perdido e assassinado em guerras.
terá havido madrinhas pretas?
«o importante serviço à Pátria» é, ainda hoje, o que faz viver antigos combatentes que só resignaram com o fim do regime e consequente fim da guerra.
é sabido que muitos homens sofrem psicológicamente por terem participado na guerra, muitos (a maioria?) nem sequer sabia ao que ia... o serviço à Pátria foi (é) uma obrigação inventada - como se verifica agora no presente que revisita o passado pelas demandas do sr. Portas -, que remeteu para o futuro imensos problemas sociais e estrurais no âmbito da família e na percepção das realidades.
os filhos dos homens de ontem são hoje líderes. dos piores líderes de sempre da história recente deste país. iludidos pelo esquecimento e por lutas sem valor que foram travadas.
as madrinhas de guerra foram tudo para muitos? provavelmente, e se na realidade do estado elas foram necessárias para manter a ordem e a obrigatoriedade de aceitação das ordens do regime, na ficção elas não teriam existido.
sem guerra, os povos não teriam sido tão impulsivos e a realidade minimalista - os portugueses porque fugiram a sete pés de regresso a Portugal e os autóctones não souberam democratizar as suas vidas - talvez pudesse ter sido evitada.
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Sandra irei continuar a acompanhar o teu interesse por este e outros assuntos.
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Vou igualmente acompanhar o teu interesse por este e outros meus interesses.
Sandra
Afixado por: Sandra em outubro 18, 2003 08:00 PM