outubro 22, 2003

HISTÓRIA DAS IDEIAS POLÍTICAS: época contemporânea

Justifica-se este post, acima de tudo, pela importância que as ideias políticas, sua aplicação e confronto têm para a evolução do processo histórico. Conhecê-las significa, assim, entender melhor tal processo e o porquê de determinadas opções em determinadas épocas.

Exemplificando:

Teorizador da denominada "Terceira via", Anthony Giddens publicou uma obra sobre o assunto, trazida a público, em Portugal, pela Editorial Presença.

Para uma terceira via é, pois, um trabalho que visa chamar atenção para um novo caminho que se deve encontrar na política, em particular, naquilo que tem a ver com a renovação da social-democracia, aspecto ainda mais premente após a queda dos regimes comunistas.

Organiza-se a obra da seguinte forma:

I- SOCIALISMO E DEVIR

- A morte do socialismo
- Social-democracia clássica
- A perspectiva neoliberal
- Comparação das doutrinas
- Os debates recentes
- Estruturas de apoio político
- O futuro da social-democracia

II- CINCO QUESTÕES FUNDAMENTAIS

- Globalização- Individualismo
- Esquerda e direita
- Acção política
- Questões ambientais
- Uma política de terceira via

III- ESTADO E SOCIEDADE CIVIL

- Democratizar a democracia
- A questão da sociedade civil
- Crime e comunidade
- A família democrática

IV- O ESTADO DE INVESTIMENTO SOCIAL

- O significado de igualdade
- Inclusão e exclusão
- Uma sociedade de protecção positiva
- Estratégias de investimento social

V- A CAMINHO DA IDADE GLOBAL

- A nação cosmopolita
- Pluralismo cultural
- Democracia cosmopolita
- A União Europeia
- Governação global
- Fundamentalismo mercantilista à escala mundial

CONCLUSÃO

Para ilustrarmos um pouco as ideias do autor apresentamos em anexo alguns excertos da obra.

Referência bibliográfica:

GIDDENS, Anthony- Para uma terceira via. Lisboa: Editorial Presença, 1999.

A morte do socialismo

As origens do socialismo ficaram ligadas à primeira fase da sociedade industrial, algures entre meados e finais do século XVIII. O mesmo se pode dizer em relação ao seu adversário principal, o conservadorismo, que foi moldado para combater os ideais da Revolução Francesa. O socialismo começou por ser um corpo de ideais antagónicos do individualismo; só mais tarde é que evoluiu para a crítica sistemática do capitalismo. Antes de adquirir um significado específico com o nascimento da União Soviética, o comunismo confundia-se bastante com o socialismo, com cada um dos sistemas a privilegiar os aspectos sociais ou comunitários.
O socialismo começou por ser um impulso de natureza ética e filosófica, muito antes de Marx começar a vesti-lo com as roupagens da doutrina económica. No entanto, coube a Marx o papel de dar ao socialismo uma teoria económica consistente. Foi também ele que colocou o socialismo no contexto do processo histórico. (...)
O socialismo procura combater as limitações do capitalismo para o tornar mais humano ou até para o derrotar. A teoria económica do socialismo assenta na ideia de que, apenas com as suas soluções, o capitalismo é ineficiente do ponto de vista económico, provoca fracturas sociais e, a longo prazo, é incapaz de se reproduzir. (...)

O socialismo ocidental foi dominado pela corrente da social-democracia- um socialismo moderado e parlamentar- construído através da consolidação do Estado-providência. Na maioria dos países, incluindo a Grã-Bretanha, o Estado-providência foi uma criação tanto da esquerda como da direita, mas no período do pós-guerra os socialistas chamaram a si a paternidade da ideia. (...)

(...) a social-democracia e o neoliberalismo clássicos representam duas filosofias políticas bastante distintas. (...) As comparações a traço largo deste tipo correm o risco de ser meras caricaturas. No entanto, os contrastes que assinalam são concretos e importantes, e os resíduos da social-democracia clássica são ainda bem nítidos por toda a parte.

Social-democracia clássica (a velha esquerda)

- Envolvimento alargado do Estado na vida social e económica
- Primazia do Estado sobre a sociedade civil
- Colectivismo
- Administração de raiz keynesiana, juntamente com a defesa de interesses de classe
- Limitação do papel do mercado: economia mista ou social
- Pleno emprego
- Igualitarismo forte
- Estado-providência total, protegendo o cidadão "do berço à cova"
- Modernização linear
- Poucas preocupações com o ambiente
- Internacionalismo
- Pertence ao mundo bipolar

Neoliberalismo (a nova direita)

- Governo mínimo
- Autonomia da sociedade civil
- Fundamentalismo do mercado
- Autoritarismo moral, juntamente com forte individualismo económico
- Mercado de trabalho livre, como qualquer outro
- Aceitação das desigualdades
- Nacionalismo tradicional
- Estado-providência como rede de protecção
- Modernização linear
- Poucas preocupações com o ambiente
- Teoria realista da ordem internacional
- Pertence ao mundo bipolar

(...)

Uma política de terceira via

(...)

O primeiro objectivo de uma política de terceira via devia ser o de ajudar os cidadãos a encontrar um caminho através das revoluções mais importantes do nosso tempo: globalização, transformação da vida pessoal e o nosso relacionamento com a natureza.Uma política de terceira via deveria ter uma atitude positiva a respeito da globalização mas, e isto é fundamental, na medida em que ela for um fenómeno de âmbito mais alargado do que o mercado global. Os sociais-democratas têm de combater o proteccionismo económico e cultural, têm de lutar no terreno da extrema-direita, que encara a globalização como uma ameaça à integridade nacional e aos valores tradicionais. (...) Uma política de terceira via não deve encarar a globalização como aceitação tácita da liberdade dos mercados. O comércio livre pode ser a locomotiva do desenvolvimento económico mas, devido ao poder destrutivo que os mercados exercem sobre a sociedade e a cultura, temos sempre de analisar as consequências mais graves da sua libertação.
Uma política de terceira via deve manter a justiça social como preocupação nuclear, embora levando em linha de conta que o leque de questões que não cabem na velha dicotomia esquerda/direita é mais amplo do que nunca. Igualdade e liberdade individual podem tornar-se antagónicas, mas as medidas de igualização podem também alargar as perspectivas de liberdade que se apresentam aos indivíduos. Para os sociais-democratas liberdade devia significar autonomia de acção, o que por sua vez exige o envolvimento da comunidade social mais alargada. Tendo abandonado o colectivismo, a política de terceira via procura um novo tipo de relacionamento entre o indivíduo e a comunidade, uma redefinição de direitos e obrigações. (...)
O segundo preceito da sociedade actual deveria ser não há autoridade sem democracia. A direita sempre viu os símbolos como meios privilegiados de justificar a autoridade, fosse a Nação, o Governo, a Família ou outras instituições. (...) Numa sociedade em que a tradição e os costumes estão a perder forças, o único caminho para a estabilidade passa pela democracia. O novo individualismo não corroi inevitavelmente a autoridade, mas exige que ela seja repensada numa base de participação activa.
(...)
Uma modernização sensível aos problemas ambientais não significa "mais e mais modernidade", mas tem consciência dos problemas e limitações dos processos de modernização. Está alerta para a necessidade de restabelecer a continuidade e melhorar a coesão social num mundo de mudanças erráticas, em que as energias, por si próprias imprevisíveis, da inovação científica e tecnológica têm um papel importante...

(...)

Valores da terceira via

- Igualdade
- Protecção dos desfavorecidos
- Liberdade encarada como autonomia
- Não há direitos sem obrigações
- Cosmopolitismo pluralista
- Conservadorismo filosófico

O programa da terceira via

- Centro radical
- O novo Estado democrático (o Estado sem inimigos)
- Sociedade civil activa
- A família democrática
- A nova economia mista
- Igualdade como inclusão
- Protecção social positiva
- O Estado social como investimento
- A nação cosmopolita
- Democracia cosmopolita

(...)


Publicado por sandra em outubro 22, 2003 05:55 PM
Comentários

GOSTARIA DE OBTER INFORMACOES SOBRE: COMO O PROBELMA DA REPRESENTACAO POLITICA TEM SIDO ENFRENTADO NO PESNAMENTO POLITICO CLASSICO E CONTEMPORANEO? qUAIS SERIAM AS DIFERENCAS ENTRE AS INTERPRETACOES DO ELITISMO E DO PLURALISMO SOBRE O FUNCIONAMENTO DA DEMOCRACIA MODERNA? AAGURADO INFORMACOES. OBRIGADA. AUDREY

Afixado por: AUDREY FERREIRA DIAS LEITE em junho 4, 2004 02:17 PM

Muito interessante o apanhado esquemático da obra "Terceira via", de Giddens. Concordo que a posição política contemporânea deve ainda muito às teses da época moderna; mas já se esboça um ressurgimento de grupos de pesquisa e produção filosófico-política no sentido de apreender as características dessa cosmopolítica da globalidade. A esse respeito, mister se faz ler a obra "A identidade cultural na pós-modernidade" de Stuart Hall.Espero ver novas publicações nesse campo de estudos que é a história das idéias políticas...

Afixado por: João Paulo Santos Mourão em novembro 29, 2004 05:01 PM

Muito interessante o apanhado esquemático da obra "Terceira via", de Giddens. Concordo que a posição política contemporânea deve ainda muito às teses da época moderna; mas já se esboça um ressurgimento de grupos de pesquisa e produção filosófico-política no sentido de apreender as características dessa cosmopolítica da globalidade. A esse respeito, mister se faz ler a obra "A identidade cultural na pós-modernidade" de Stuart Hall.Espero ver novas publicações nesse campo de estudos que é a história das idéias políticas...

Afixado por: João Paulo Santos Mourão em novembro 29, 2004 05:03 PM