"O horror dos gulags escondidos na Coreia do Norte", assim como "É preciso pressionar Pyongyang", entrevista com David Hawk, são dois trabalhos assinados por Francisca Gorjão Henriques no jornal Público de hoje que, pelo conteúdo de importância histórica (no âmbito da História Contemporânea) que apresentam, entendemos deles fazer registo e anexar a sua transcrição.
O HORROR DOS GULAGS ESCONDIDOS NA COREIA DO NORTE
Torturas, infanticídio, abortos forçados, violações de mulheres, rações mínimas para não morrer à fome... Em pelo menos 36 campos prisionais da Coreia do Norte, escondidos em vales ou no meio das montanhas, vivem-se situações de verdadeira escravatura. São campos de trabalhos forçados de onde, por vezes, só se sai para morrer em casa ou na rua: uma forma de diminuir o número elevadíssimo de mortes nas prisões. Mas para lá ir parar pode bastar uma simples distracção. Como cantar uma música pop sul-coreana. Com base em imagens de satélite e entrevistas a antigos detidos e guardas prisionais que conseguiram fugir para o estrangeiro, o Comité Americano para os Direitos Humanos na Coreia do Norte- um grupo independente com sede em Washington- concluiu que "os campos norte-coreanos foram construídos segundo o modelo estalinista e continuam a ser geridos assim", escreve Anne Aplebaum no prefácio. "Como no tempo de Estaline, a liderança norte-coreana não quer que ninguém saiba nenhum destes pormenores", continua Aplebaum. E nega que os campos existam. Mas desde terça-feira que as 125 páginas do relatório "O Gulag Escondido: Os Campos de Prisioneiros da Coreia do Norte", dirigido pelo investigador David Hawk (ver entrevista), estão acessíveis ao público.
Prisões políticas, punições colectivas
Os avós de Kang Chol-hwan, 35 anos, estavam no Japão, mas decidiram ir para Pyongyang para contribuir para construir o socialismo. Mas um dia o avô desapareceu e foi dito à família que cometera um acto de alta traição. Todos, excepto a mãe de Kang, foram levados para o campo de trabalho de Yodok (um campo "kwan-li-so", destinado aos crimes políticos; já existiram uma dezenas deles, mas agora há seis ou sete). Kang tinha nove anos. Ficou lá até aos 19, quando foi inesperadamente libertado.
Existem entre 150 mil e 200 mil norte-coreanos detidos por crimes políticos: algo que pode ir da leitura de um jornal estrangeiro ao insulto à autoridade. Dezenas de milhares são presos juntamente com os vários membros da família, muitas vezes até três gerações, que são distribuídos por áreas distintas, ou por campos diferentes, impedidos de manter contactos entre si.
"São presos sem qualquer processo judicial, que frequentemente cumprem penas perpétuas". E trabalham como escravos em minas, a cortar árvores, ou a tratar de animais de criação- uma tarefa considerada privilegiada devido ao acesso às rações, que permite aumentar a dose calórica diária. Há quem tenha menos sorte, como Kim Tae Jin, que esteve no mesmo campo entre 1988 e 1992. Para sobreviver comia plantas, raízes, ratos, cobras, sapos.
Os delitos comuns
Os campos "kyo-hwa-so"- que significa "um lugar para tornar uma pessoa melhor através da educação"- albergam presos que tiveram direito a um processo judicial e recebem penas fixas de prisão, ao fim das quais são, libertados. Mas largos milhares morrem antes de a pena chegar ao fim, em acidentes de trabalho- em minas, fábricas, pedreiras- ou por não resistirem à fome. Aqui, os presos recebem 100 gramas de feijão ou arroz por dia. Os que não conseguem resistir são "atirados para as montanhas, como animais mortos", sem serem enterrados.
São campos para delitos comuns, mas por vezes trata-se de uma forma encapuzada de prisões políticas: Ji Hae-nam, agora com 54 anos, foi presa por perturbar a "ordem socialista". Fazia parte do comité de propaganda do Partido dos Trabalhadores. Mas fixou uma música sul-coreana que ouviu na televisão. Numa festa com outras mulheres, cantou-a. Os vizinhos denunciaram-na. Foi presa, espancada, violada. Ao fim de dois anos e dois meses libertaram-na.
Os criminosos da fronteira
Foi a simples curiosidade de um adolescente de 19 anos que levou An Hyuk a "espreitar" a China. Custou-lhe caro: foi repatriado para a Coreia do Norte, esteve um ano e oito meses em solitária (estas celas têm normalmente um metro por três), obrigado a permanecer estático vários dias.
Não foi o caso de An, cuja família era apoiante do regime, mas para fugir à fome e à repressão, muitos norte-coreanos tentam atravessar a fronteira para a China, para tentarem chegar a Seul.
Alguns conseguem chegar ao seu destino. A maior parte não, ou porque são apanhados ainda na Coreia, ou porque são repatriados pelas autoridades chinesas que não lhes conferem estatuto de refugiados. A estes, esperam-nos torturas violentas. Se as mulheres vierem grávidas, fazem abortos forçados. As que têm os filhos são obrigadas a assistir à sua morte, normalmente por asfixia. Estão em prisões à parte para não poderem contar o que viram do outro lado".
_________________________________________
"É PRECISO PRESSIONAR PYONGYANG"
(entrevista com David Hawk)
Autor do relatório surpreendido com sistema de punição colectiva
Entre Agosto de 2002 e Fevereiro de 2003, o investigador David Hawak (que dirigiu o Alto-Comissariado dos Direitos Humanos da ONU no Cambodja entre 1996 e 1997) esteve em Seul três vezes para entrevistar 30 antigos presos ou guardas norte-coreanos. Ontem falou por telefone ao PÚBLICO a partir de Washington sobre o relatório do Comité Americano de Direitos Humanos na Coreia do Norte.
PÚBLICO- Os dados que recolheu surpreenderam-no?
DAVID HAWK- Sim. Há elementos que são piores do que eu imaginava. Por exemplo, o sistema de punição colectiva: não são só os alegados responsáveis por delitos políticos que são presos para toda a vida, sem julgamento, mas as três gerações dos seus familiares, que também ficam presos e são enviados ou para outros campos, ou para outros lugares dentro do campo. Esta ideia de punição colectiva para toda a família é altamente invulgar. Não conheço nenhuma outra sociedade onde isto aconteça.
Foi difícil interrogar estas testemunhas?
Muitas das suas histórias foram muito difíceis de ouvir. As pessoas queriam contar as suas histórias, queriam que o mundo soubesse o que lhes tinha acontecido. Mas trouxe muitas recordações dolorosas, era-lhes muito difícil falar e muitos foram-se abaixo enquanto os entrevistávamos.
Como é que lidam com esse passado?
Só estive com eles quatro ou cinco horas, que era o tempo das entrevistas. Mas imagino que seja muito difícil: passam de uma situação absolutamente extrema de escassez para Seul, que é uma cidade muito, muito moderna, com um fabuloso sistema de metro, muitos produtos de consumo, 30 canais de televisão. Recebem algum apoio das autoridades coreanas para poderem tirar cursos, melhorarem a educação, encontrar emprego. Alguns ainda estão à procura , outros já arranjaram, depende muito de pessoa para pessoa.
Acha que este relatório poderá mudar alguma coisa na forma como a comunidade internacional e os EUA, em particular, lidam com a Coreia do Norte?
Esperamos pelo menos que o relatório providencie o vocabulário, a análise e as provas necessárias para desafiar a negação das autoridades norte-coreanas de que não têm presos políticos nem campos políticos.
A Coreia do Norte atravessa crises múltiplas, com a situação alimentar, a crise do programa nuclear, etc, e se as negociações atingirem um estádio em que a ajuda estrangeira e o investimento possam ser considerados, esperamos que então a situação dos direitos humanos entre para a agenda.
O que é que pode ser feito?
Uma das abordagens é uma solução que seja mais abrangente do que simplesmente as questões de segurança. Os norte-coreanos querem uma quantidade substancial de ajuda económica para acabar com o seu programa nuclear. Não sei se [para já] irão limitar-se à questão das garantias de segurança [a serem dadas pelos EUA], ou se desejarão algo mais alargado. Se assim for, então esperamos que os direitos humanos comecem a fazer parte das negociações.
É preciso aumentar a pressão através de uma resolução da ONU, que poderá surgir no próximo ano. O Programa Alimentar Mundial dá assistência a um quarto da população. A ONU está muito envolvida nos esforços de ajuda humanitária e esperamos que se possa envolver cada vez mais na situação dos repatriados pela China.
A China não deverá tomar algumas medidas em relação a isso?
Sim, esperamos que a China permita ao Alto-Comissariado para os refugiados da ONU o acesso aos norte-coreanos que estão no Norte do país. Mas até darem esse passo, desejamos arduamente que a China simplesmente pare de repatriar norte-coreanos.
Publicado por sandra em outubro 24, 2003 08:25 PMÉ mais uma horrenda história da humanidade. Não dá p/ entender como pessoas ainda são despojados dos seus direitos mais elementares. Apenas por terem idéias diferentes. É muito absurdo estes dirigentes vivem como milhonarios capitalistas e o povo vive como na idade mádia ou até pior como escravos. Se este tipo de "socialismo" fose bom porque tantas pessoas fogem e tantas outras são mortas tentando fugir?
Afixado por: Wilton Bandeira em dezembro 31, 2003 01:19 PMA História tem-nos ensinado (demonstrado) que não existem regimes perfeitos. Mas ensina-nos, também, que cada regime deve ser isentamente analisado/estudado naquelas que são as suas vertentes (áreas de actuação), por forma a fazerem-se sínteses rigorosas. Discursos acusatórios ou ilibatórios não devem ser, em rigor, um registo num discurso histórico que se pretende, acima de tudo, com carácter científico.
Afixado por: Sandra em janeiro 6, 2004 07:10 PM O tempo está contra o regime da Coreia do Norte. Os EUA vão invadir o país não por questões humanitárias, mesmo que buscando este rótulo. É para manter o monopólio de armas atômicas.
Tudo é uma questão de propaganda, não defendendo o regime da Coreia do Norte, A Arabia Saudita, Omã, Catar e etc, não há liberdade religiosa e nem política, mas como são aliados dos EUA não recebem espaço no noticiário internacional. Quando recebem alguma crítica é em época eleitoral nos EUA para satisfazer a opinião pública INTERNA.
Quando o escudo "espacial' estiver pronto toda tentativa de acertar o território dos EUA por mísseis seram atingidos por raios que partem do território dos EUA e resvalam no escudo espacial e destroem o míssel antes de chegar ao alvo.
O tempo está contra o regime da Coreia do Norte. Os EUA vão invadir o país não por questões humanitárias, mesmo que buscando este rótulo. É para manter o monopólio de armas atômicas.
Tudo é uma questão de propaganda, não defendendo o regime da Coreia do Norte. A Árabia Saudita, Omã, Catar e etc, não há liberdade religiosa e nem política, mas como são aliados dos EUA não recebem espaço no noticiário internacional. Quando recebem alguma crítica é em época eleitoral nos EUA para satisfazer a opinião pública INTERNA.
Quando o escudo "espacial' estiver pronto toda tentativa de acertar o território dos EUA por mísseis seram atingidos por raios que partem do território dos EUA e resvalam no escudo espacial e destroem o míssel antes de chegar ao alvo.