outubro 26, 2003

HISTÓRIAS SECRETAS DA PIDE/DGS: o terrorismo de esquerda

Os anos 60 destacam-se pelo aumento do terrorismo no mundo inteiro.
Surgem, por exemplo, vários grupos radicais a tudo dispostos em nome do marxismo-leninismo e seus derivados. Alguns deles chegam mesmo a ser apoiados pelos partidos comunistas, outros afirmam-se como órgãos de acção directa desses partidos.

Alguns destes grupos em Portugal:

- FAP-Frente de Acção Popular (1964)
- LUAR- Liga de Unidade e Acção Revolucionária (1967)
- BR- Brigadas Revolucionárias (1970)
- ARA- Acção Revolucionária Armada (1970)

Sobre esta temática, atente-se na entrevista a Óscar Cardoso. A título excepcional apresentamos, também, o que sobre o assunto nos diz o ex-inspector Abílio Pires.

ENTREVISTA COM ÓSCAR CARDOSO

Bruno Oliveira Santos: A PIDE inculcou a ideia de um Partido Comunista como organização clandestina muito bem montada e perigosa para justificar a existência da própria polícia?

O.C: Não. O Partido Comunista era mesmo uma organização bem montada, embora não fosse uma máquina infernal. A sua estrutura, aquando do 25 de Abril, estava já praticamente de rastos.

B.O.S: O MRPP já vos causava mais problemas?

O.C: Sem dúvida. Os militantes do MRPP eram os meninos maus das famílias boas. Eram jovens, sobretudo estudantes, e já causavam mais problemas do que os comunistas.

B.O.S: Conheceu os processos sobre o terrorismo do PCP, através do seu braço armado, a ARA?

O.C: Conheço alguns dados sobre a organização.

B.O.S: No ano passado, um dos operacionais da ARA, Jaime Serra, publicou um livro, onde conta a história das várias acções realizadas.

O.C: O que ele se esqueceu de escrever é que, em Abril de 1971, a ARA também provocou o desaparecimento do navio Angoche, ao largo de Moçambique, causando 23 mortos. Quem fez explodir os helicópteros de Tancos, fez explodir o Angoche. É que as duas explosões foram provocadas pelo mesmo tipo de explosivo, do mesmo lote.
Nós tínhamos um laboratório de polícia no 3º andar da António Maria Cardoso e que era dirigido pelo dr. Carlos Veloso, que ainda é vivo. Foram aí feitas análises para apurar responsabilidades, tendo-se concluído precisamente que as duas acções foram realizadas com o mesmo lote de explosivo. É evidente que o processo do Angoche desapareceu sem deixar rasto. O processo demonstrava que o crime foi perpetrado pela ARA, com a conivência de oficiais superiores da Marinha, entre eles o Vítor Crespo, que nos meios castrenses e não só era também conhecido por Vítor Copos. É que o PCP teve sempre, e ainda tem, os seus informadores na Forças Armadas. Ora, foi precisamente através desses informadores que o PCP soube que o Angoche transportava material de guerra para o norte de Moçambique. (...)
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ENTREVISTA COM ABÍLIO PIRES

Bruno Oliveira Santos: Investigou alguns processos de terrorismo?

Abílio Pires: Conheço bem o processo da FAP. A organização morreu à nascença, por denúncia do PCP. O jornal do partido noticiou a entrada em Portugal de Francisco Martins Rodrigues e de João Pulido Valente. Os comunistas não perdoavam. Vários funcionários e militantes que, segundo as normas comunistas, traíram o PCP foram despachados com o famoso tiro na nuca: a Aurélia Celorico, no Porto; o José Miguel Lambanas, em Almada; o Augusto Ferreira Lindolfo, em Gaia, que não morreu mas apanhou uma rajada de metralhadora; o Mário Mateus...

B.O.S: Conheceu também os processos da LUAR.

A.P: Muito bem. O Palma Inácio roubou vinte e oito mil contos da filial do Banco de Portugal da Figueira da Foz. Em 1967, vinte e oito mil contos era uma fortuna! Desse dinheiro, eu consegui recuperar vinte e dois mil.
Recuperei onze mil em Paris. Lembro-me perfeitamente, foi em plena agitação do Maio de 68. Viajei de avião para Bruxelas e daí fui de autocarro para Paris. A cidade estava sem transportes públicos, as multidões ocupavam as ruas... Eu já sabia onde estava o dinheiro! A LUAR estava infiltrada com informadores nossos! O dinheiro estava debaixo de uma báscula numa quinta dos arredores de Paris. Estavam lá onze mil contos. (...)
Os restantes onze mil contos estavam numa mina de água, nos arredores de Guimarães. Os informadores disseram que o dinheiro estava à guarda de um indivíduo de apelido Teixeira e mencionaram o local aproximado de residência. Não foi difícil encontrá-lo. Havia só dois Teixeiras na zona. O dinheiro estava numa lata dentro de um saco de plástico.

B.O.S: E os outros seis mil?

A.P: Três mil contos tinham sido gastos em viagens pelo Camilo Mortágua e pelo Palma Inácio. Andaram pelo México, Brasil e outras paragens. Os outros três mil foram depositados na conta bancária do Emídio Guerreiro, em França. Por causa disso, cheguei a falar com o subdirector da Polícia Judiciária Francesa, mas vi logo que era impossível recuperar o dinheiro. É que o Emídio Guerreiro era muito estimado em França, pertencera à Resistência Francesa durante a II Guerra Mundial.

B.O.S: O Palma Inácio foi preso mas fugiu...

A.P: Agora já se pode contar: eu comprei a serra que ele usou para fugir! Fi-lo para proteger o meu informador. Disse-me que o Palma Inácio queria uma serra. Comprei a serra e disse ao informador para metê-la dentro de um pão e fazê-la chegar às mãos do Palma Inácio numa das visitas da irmã.
Decidi fazê-lo porque, para além de proteger o informador, tinha o Palma Inácio completamente controlado. Ele não entrava em Portugal sem que eu soubesse. A prova disso é que, tendo entrado mais tarde, foi imediatamente preso na Avenida Duque de Ávila, em Lisboa, quando estava a preparar os seus homens para assaltar um banco na Chamusca. Foram todos presos.
Eu sabia tudo quanto se passava na LUAR. Depois do 25 de Abril, prenderam o Moura Dinis, acusando-o de ser o meu informador. Mas não era. O Moura Dinis foi preso em Caxias sem culpa nenhuma. Os meus informadores eram outros... (...)

Publicado por sandra em outubro 26, 2003 01:55 PM
Comentários

Sou sobrinha de Abílio Pires. Sou brasileira,não o conheci, mas gostaria de saber mais sobre ele.

Afixado por: Maria da Conceição Pires em julho 25, 2004 02:55 AM

Sou sobrinha de Abílio Pires. Sou brasileira,não o conheci, mas gostaria de saber mais sobre ele.

Afixado por: Maria da Conceição Pires em julho 25, 2004 02:55 AM