outubro 27, 2003

A ACÇÃO REVOLUCIONÁRIA ARMADA E A SUA ACÇÃO EM PORTUGAL: referência bibliográfica e documentos

Da autoria de Jaime Serra, o livro As explosões que abalaram o fascismo, publicado pelas Edições Avante!
De acordo com o autor:

"A presente edição é uma versão mais completa, ampliada e pormenorizada, do texto sobre a ARA inserido no meu livro Eles Têm o Direito de Saber (Edições "Avante!", Lisboa, 1997).
Esta iniciativa resultou do facto de numerosos leitores terem manifestado a opinião de que aquele texto sobre a ARA estava demasiado sintetizado, tratando-se de um acontecimento de importância histórica na longa luta contra o fascismo e que tanto impacto teve na vida política nacional nos últimos anos do regime fascista e colonialista derrubado com a Revolução do 25 de Abril de 1974.
Os comunicados da ARA, agora também publicados na íntegra e na totalidade, constituem, a nosso ver, documentos de grande interesse para a compreensão da justeza política das suas acções.
No que se refere à descrição de alguns dos mais interessantes episódios destas acções, até agora de conhecimento muito restrito e que aqui se publicam, registamos com apreço a contribuição prestada por Carlos Coutinho, um dos principais intervenientes nessas acções".

Sem que isto signifique a dispensa da leitura integral da obra, deixamos, a título exemplificativo, três comunicados da ARA referenciados pelo autor.
Recordamos, ainda, que sobre esta organização falou igualmente o ex-inspector da PIDE Óscar Cardoso, em entrevista dada no âmbito do tema "Terrorismo de Esquerda" e já editada neste blog.

Referência bibliográfica:

SERRA, Jaime- As explosões que abalaram o fascismo. Lisboa: Edições Avante!, 1999 (Colecção Resistência).

OS COMUNICADOS DA ARA

- Sobre a acção no navio Cunene

"Hoje, dia 26 de Outubro, cerca das cinco horas da manhã, um Comando da ACÇÃO REVOLUCIONÁRIA ARMADA (ARA), levou a cabo com êxito a primeira operação revolucionária armada contra o aparelho de guerra de opressão colonial do governo fascista.
Em virtude desta acção ficou alagado e imobilizado na doca de Alcântara, em Lisboa, com um grande rombo, o navio CUNENE, de 16 000 toneladas que é utilizado para alimentar a guerra colonial.
O Comando Central da ACÇÃO REVOLUCIONÁRIA ARMADA declara que ao atacarmos a máquina de guerra que alimenta a guerra colonial não estamos contra os soldados, os sargentos e oficiais honrados, forçados a fazer uma guerra que odeiam. Estamos, sim, contra a continuação desta criminosa guerra de opressão colonial que se transformou num flagelo para os povos de Angola, Guiné e Moçambique e num cancro que corrói a nação, que queima vidas e bens do povo português para servir os interesses dum punhado de monopolistas sem pátria. Estamos solidários com a justa luta libertadora dos povos coloniais.
A ACÇÃO REVOLUCIONÁRIA ARMADA propõe-se conduzir a sua acção revolucionária no quadro da luta geral do povo português contra a ditadura fascista e pela conquista da liberdade. Deste modo, a ARA não se desliga da luta revolucionária das massas, da luta dos operários e camponeses, da luta dos estudantes e intelectuais revolucionários contra a política fascista do governo de Marcelo Caetano; antes se propõe secundá-la até chegar à insurreição popular armada que destruirá para sempre a ditadura fascista e o poder dos monopólios e latifundiários, assim como o domínio imperialista no nosso país.

VIVA A INSURREIÇÃO POPULAR ARMADA!

26 de Outubro de 1970

O Comando Central da
ACÇÃO REVOLUCIONÁRIA ARMADA".

- Tripla acção: contra a Escola da PIDE/DGS, o navio Niassa e o Centro Cultural dos EUA

"No prosseguimento da sua acção revolucionária, comandos da A.R.A, numa acção conjugada, levaram a efeito com pleno êxito, na madrugada do dia 20 de Novembro, três operações distintas:- destruição parcial da Escola Técnica da odiosa PIDE-DGS, principal instrumento de repressão fascista do governo de M. Caetano; destruição de importantes quantidades de equipamento e material de guerra armazenados no cais privativo da C.N.N., prontos para embarque no navio NIASSA para alimentar a guerra colonial; destruição do "Centro Cultural" da embaixada dos Estados Unidos em Lisboa, centro de propaganda ideológica do imperialismo americano no nosso país.
O Comando Central da A.R.A salienta que, dados os processos técnicos utilizados, quaisquer destas acções revolucionárias poderiam ter tido lugar a qualquer hora do dia. Sacrificando, contudo, um maior efeito espectacular de tais acções, houve a preocupação de, na medida do possível, evitar perdas de vida inúteis. A despeito desta preocupação, e não podendo garantir em absoluto que em futuras acções revolucionárias não se venham a verificar acidentes mais graves que os verificados até agora. A ACÇÃO REVOLUCIONÁRIA ARMADA responsabiliza desde já por tal eventualidade o governo de M. Caetano devido ao prosseguimento da sua política antinacional de terrorismo político, de guerra colonial e de sujeição ao imperialismo estrangeiro.
Não podendo já silenciar por mais tempo a existência e a acção da A.R.A, o governo, pela boca dos seus porta-vozes da PIDE-DGS, procurou deturpar o significado e importância política da sua acção, classificando os membros da A.R.A de "terroristas", de "maoístas", etc. A ACÇÃO REVOLUCIONÁRIA ARMADA fiel aos propósitos definidos no seu Comunicado de 26 de Outubro último, prosseguirá ao lado do povo e demais forças antifascistas na luta pelo derrubamento da ditadura fascista, contra a guerra colonial, contra o domínio imperialista no nosso país.

VIVA A INSURREIÇÃO POPULAR ARMADA!

21 de Novembro de 1970

O Comando Central da
ACÇÃO REVOLUCIONÁRIA ARMADA".

- Sobre a acção na doca de Alcântara

"Na madrugada do dia 12 de Janeiro de 1972, um comando da A.R.A colocou duas potentes cargas, uma explosiva e outra incendiária, num dos armazéns do cais de Alcântara em Lisboa.
Em consequência da forte explosão e do incêndio que se lhe seguiu foi destruída grande quantidade de material pronto a embarcar para a guerra colonial, entre o qual se encontrava importante material de guerra recém-chegado de França e destinado a unidades de caçadores pára-quedistas.
Porque o comando da A.R.A actuou entre as 6 e as 8 horas da manhã, quando no Porto de Lisboa não há trabalhadores em actividade, não houve mortos nem feridos.
O comando da A.R.A que realizou a acção não teve baixas.
A A.R.A prosseguirá a sua acção revolucionária, integrada na luta do povo português contra o fascismo e solidária com a heróica e justa luta dos povos de Angola, Guiné e Moçambique.

ABAIXO O FASCISMO E O COLONIALISMO!
VIVA A INSURREIÇÃO POPULAR ARMADA!

12 de Janeiro de 1972.

O COMANDO CENTRAL DA A.R.A".

Publicado por sandra em outubro 27, 2003 03:51 PM
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