A perseguição aos judeus levada a cabo pelos nazis, não só, mas sobretudo, aquando do período da 2ª Guerra Mundial, originou ondas de refugiados na Europa. Os EUA apresentaram-se, então, como o "novo paraíso", espaço onde milhares de homens, mulheres e crianças poderiam voltar a instalar-se e tranquilamente conduzir/prosseguir as suas vidas.
Portugal recebeu muitos destes judeus, como placa giratoria para o outro lado do Atlântico. A sua passagem pelo país não foi indiferente à população, em particular no que respeita a usos e costumes. Lisboa, por exemplo, foi palco de vários episódios e situações.
No domínio da literatura esta passagem dos judeus pela capital foi abordada, por exemplo, por Erich Maria Remarque, no seu livro Uma noite em Lisboa.
Quanto à história :
Lisboa, ano de 1942. Os refugiados afluem a Portugal. No cais, dois homens, ambos emigrados alemães, iniciam uma estranha negociação. Um deles oferece ao outro os passaportes e os bilhetes que lhe possibilitarão seguir viagem com destino a Nova Iorque no navio que parte no dia seguinte. O preço por este favor é o seguinte: que o beneficiário se disponha a ouvir a dolorosa confissão do seu interlocutor.
Toda esta história é revivida através da narração do seu protagonista, um judeu fugido ao terror hitleriano.
O autor:
Erich Maria Remarque, nasceu a 22 de Junho de 1898 na Alemanha. Foi soldado aquando da 1ª Guerra Mundial, escrevendo com base nessa experiência a obra A Oeste nada de Novo. É ainda autor de: A Centelha da Vida, O Céu não tem Favoritos, Desenraizados, Tempo para Amar e Tempo para Morrer.
Perseguido pelos nazis que queimaram algumas das suas obras o autor exilou-se nos EUA, onde veio a falecer em 25 de Setembro de 1970.
Em jeito de ilustração, apresentamos de, Uma noite em Lisboa, o início do primeiro capítulo. E, também, um pouco do final.
Tinha os olhos pregados no navio. Fundeado no Tejo, a alguma distância do cais, iluminava-o um clarão vivíssimo. Se bem que estivesse havia uma semana em Lisboa, ainda me não habituara à luminosidade extravagante da cidade. Nas terras donde eu vinha, a noite fazia das cidades negros blocos de carvão, onde o foco de uma lanterna representava mais perigo do que a peste na Idade Média. Eu vinha da Europa do século XX.
O navio de passageiros ali atracado recebia carga, e eu sabia que a partida estava marcada para a tarde do dia seguinte. À luz crua de uma fiada de lâmpadas eléctricas, iam-se acumulando fardos de carne, peixe, conservas, pão e legumes, os carregadores arrastavam para bordo caixotes imensos e um guidaste içava volumes e fardos com a despreocupada indiferença de quem lhes não sente o peso.
O navio preparava-se para a partida, qual arca em tempo de dilúvio. E era de facto a arca de Nóe. Qualquer navio que naquele ano de 1942 abandonasse a Europa assemelhava-se a uma arca de salvação. A América era o monte Ararat e o dilúvio ia crescendo sempre. A enchente engolira há muito a Alemanha e a Áustria, atingindo proporções gigantescas na Polónia e em Praga. Amsterdão, Bruxelas, Copenhaga, Oslo e Paris estavam também submersas, as cidades da Itália ruíam e a própria Espanha deixara de ser segura. A costa de Portugal ficara sendo o último refúgio para os emigrantes que acima da pátria e da própria vida colocavam os seus ideais de liberdade, justiça e tolerância. Quem a partir daí não conseguisse alcançar a terra bendita da América estava perdido. Ficaria condenado a uma morte lenta no labirinto de documentos sempre recusados, de impossíveis licenças de trabalho e autorização de permanência no país, de campos de internamento; envolvido nos complicados meandros da burocracia; reduzido à solidão irremediável de desconhecido em terra alheia e à indiferença geral e criminosa com que era olhado o destino de cada homem, consequência inevitável da guerra, do medo e da necessidade. Naquela altura o homem não valia nada: um passaporte válido era tudo. (...) O navio fundeado no Tejo era o último com o qual, ainda em França, acalentáramos a esperança de chegar a Nova Iorque; a lotação esgotara-se, porém, com meses de antecedência, e, além do visto americano, faltavam-nos para cima de trezentos dólares. Tinha tentado arranjar pelo menos o dinheiro e fizera-o pelo único processo ao meu alcance- o jogo.
(...)
Estive na América durante todo o tempo que durou a guerra. (...)
Terminada a guerra, regressei à Europa. Não me foi fácil estabelecer a minha identidade, justamente numa altura em que na Alemanha centenas de grandes senhores lutavam por se libertarem da sua.
(...)
A sua pagina é muito interessante,uma pergunta,
podia-me indicar algum livro sobre os judeus em
Portugal,com aspectos sobre a sua distribuiçao
espacial,caracteristicas etnicas,linguisticas e religiosas.Diferentes modos de viver,rituais,
vestuario,ocupaçao dos tempos livres e gastronomia.É que uma amiga que está no Secundario
tem que fazer um trabalho e neste aspecto eu nao
a posso ajudar porque só tenho livros sobre o
Holocausto.
Com os melhores cumprimentos e desejo-lhe um Feliz
Natal e um Bom Ano Novo.
Maria