Sem dúvida que, até aos dias de hoje, falar em Parque Mayer remete imediatamente para determinado tipo de teatro: a Revista.
Tal tradição começou a forjar-se, senão de imediato, logo a partir do momento de reorganização do espaço, nomeadamente com a construção progressiva dos teatros, tendo-se ao longo dos tempos verificado um aumento da oferta de espectáculos.
Se bem que tal tendência tenha vindo a diminuir, até pela alteração do conceito de durabilidade das representações, a Revista continua lá. A sua presença é um facto.
Vejamos, então, como tudo aconteceu.
PARQUE MAYER. OS 80 ANOS DA BROADWAY PORTUGUESA
A "catedral da revista"
Para se tornar o centro da "revista à portuguesa", o Parque Mayer teve de concentrar-se quase exclusivamente neste género teatral. Não obstante, também nele se exibiram operetas, comédias e cinema. Acolheu ainda a Companhia Amélia Rey Colaço, após o incêndio no Teatro Nacional D. Maria II. Além de ter sobrevivido ao cinema que inundava a baixa lisboeta nos anos 30-70, conseguiu mesmo absorvê-lo, tendo o Capitólio imperado no circuito dos filmes pornográficos no pós-revolução (aí pôde ser visto o célebre Garganta Funda, p.e.). (...)
O título de "catedral da revista" foi uma conquista progressiva. Na década inicial, o Parque Mayer abarcou menos de 1/5 das revistas produzidas no país (contabilizando a partir de 1922). Nas décadas seguintes foi paulatinamente consolidade a sua influência até atingir uma supremacia absoluta: 41% nos anos 30, quase 50% nos anos 40, cerca de 62% nos anos 50 e cerca de 85% nos anos 60. Esta ascensão foi conseguida sobretudo à custa da redução gradual do número total de revistas produzidas, inversão esta registada durante o período da II Guerra Mundial (107, 156, 79, 71 e 66 peças, respectivamente anos 20 a 60). Depois da revolução, o Parque Mayer perdeu o gás: 61% das revistas nos anos 70, cerca de 36% nos anos 80 e cerca de 29% nos anos 90. Nos últimos anos, desde 1994, ensaiou uma tímida recuperação. Por exemplo, na década actual cabem-lhe mais de metade das revistas (embora estejamos perante números baixos: 4 em 7). O Parque Mayer foi responsável por 304 das 651 revistas produzidas entre 1922 e 2002, ou seja quase metade do total (cerca de 47%). Daí que o seu contributo para a revista, e para o teatro em geral seja relevante.
A menor quantidade de revistas em palco desde 1994/95 (abaixo de meia dúzia) não significa apenas uma redução da oferta, mas também que, na actualidade, cada espectáculo tem que estar mais tempo em cartaz. Estamos longe dos tempos em que as peças surgiam em catadupa, como nos anos 40 no Maria Vitória ou nos anos 60 no ABC (com 29 e 25 revistas, respectivamente). Estamos ainda mais distantes da época em que uma peça durou apenas uma semana no Maria Vitória (anos 30). (...)