novembro 23, 2003

A PERDA DA ÍNDIA PORTUGUESA 2: ventos de descolonização

A independência da Índia, em 1947 e a Conferência de Bandung, em 1955, foram dois importantes acontecimentos para o avanço do processo descolonizador, quer no Oriente, quer mesmo no continente africano.
Do seu significado não podia ficar alheio Portugal, naquela que era a condução da sua política colonial/ultramarina. Mas a evidência não foi entendida na época. Manuel José Homem de Mello confirma-o. Vejamos como.

A PERDA DE GOA, DAMÃO E DIU

"Não é meu intuito, ao acolher-me à sombra frondosa desta revista, debruçar-me sobre a generalidade da política ultramarina que nos conduziu ao desastre da perda inglória dos territórios de além mar. Talvez fique para depois...
Proponho-me apenas, desta feita, ocupar algum espaço com um dos aspectos mais lamentáveis e menos conhecidos entre os que ocorreram no decurso das décadas de 60 e 70 no que toca à guerra colonial.
Quero referir-me à anexação de Goa, Damão e Diu pela União Indiana.
Foram sobretudo dois os acontecimentos que marcaram e balizaram, por assim dizer, o ritmo e a irreversibilidade do processo descolonizador: a independência da Índia, em 1947 e a Conferência de Bandung em 1955.
O primeiro, evidenciando como se tornara inaceitável que um qualquer continente- praticamente um continente- povoado por pouco menos de mil milhões de habitantes, estivesse integrado na zona de vassalagem de uma ilha situada na Europa Ocidental, então com pouco mais de 50 milhões de pessoas, isto já sem referir as diferenças culturais, religiosas , históricas e sociais.
Na realidade, a Índia subordinada à Coroa britânica constituiu, ao longo de mais de 70 anos um equívoco- para não o apelidar de non sense-, que, à luz da realidade hodierna, se torna difícil aceitar e explicar.
O segundo acontecimento foi Bandung. Conferência que se realizou em Abril de 1955 sob a iniciativa e a liderança dos "não alinhados"- Índia, China, Egipto, Birmânia, Indonésia e Jugoslávia- e que decidiu colocar em comum os respectivos esforços e influência no sentido de ser acelerado o termo do ciclo colonial.
Foi, na realidade, em Bandung que verdadeiramente despertou e de desencadeou a revolta do Terceiro Mundo contra o que ficou conhecido (...) como "a agressão e domínio do mundo judaico-cristão sobre o resto da Humanidade". Revolta irreprimível à imagem de "rolo compressor" impulsionado pelos Ventos da História, cuja existência apenas os néscios, os fanáticos e os hipócritas poderiam ignorar e desmerecer.
Mais tarde, não podendo negar a evidência, alguns espíritos ingénuos ou insensatos tentaram fazer passar a mensagem- e creio que ainda não tenham desistido...- de que a colonização portuguesa estaria a salvo dos Ventos da História, na medida em que foram diferentes dos demais.
Piedosa- quano muito patriótica- tentativa para carrear mais um "argumento" a favor da continuidade da nossa presença: lá também era Portugal...
Ora a verdade é que a colonização portuguesa pode ter revestido- e revestiu mesmo- alguns aspectos, positivos e negativos, diferenciados das demais. Mas nem por isso deixou de ser... colonização. Com os defeitos (muitos) e as virtudes (poucas) que se lhe reconhecem. Deixemo-nos de gorjeios patrióticos, que apenas nos poderiam conduzir, uma vez mais, ao terreno minado por mil e uma ilusões".

(p. 49-50. Sublinhado nosso.)

Publicado por sandra em novembro 23, 2003 11:24 AM
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