Dando continuidade ao referenciado em post de 08 de Novembro, que anuncia o objectivo de apresentação de um conjunto de entrevistas em torno da temática do 25 de Abril, dadas por várias personalidades da sociedade portuguesa, editamos em anexo aquela que é a 1ª parte da entrevista concedida por Isabel do Carmo.
Isabel do Carmo, hoje médica num hospital de Lisboa, fundou com o marido as Brigadas Revolucionárias e mais tarde (1973), o Partido Revolucionário do Proletariado (PRP).
Após o 25 de Abril, destacou-se no denominado "período quente", desenvolvendo grande actividade nas ruas, em empresas e em fábricas.
Acabou por passar alguns anos presa, acusada de "autoria de acções armadas". Após a sua libertação seguiu a carreira médica.
ENTREVISTAS EM TORNO DO 25 DE ABRIL
ISABEL DO CARMO
(1ª Parte)
PÚBLICO- Como foi o seu baptismo político?
ISABEL DO CARMO- Foi aos 15 anos. Vivia no Barreiro mas andava no liceu em Lisboa. Participei no MUD Juvenil, apanhei as suas últimas actividades. Aos 17 anos entrei para o Partido Comunista- de onde saí em 1970. Nesse mesmo ano fundou-se o PRP e as Brigadas Revolucionárias.
P- Ambos no mesmo ano?
R- Não, de facto as Brigadas fundaram-se primeiro, o PRP nasce em 73.
P- O que a motivou a interessar-se tão nova pela política?
R- O ambiente... Sabe que nestas coisas, as causas são sempre reconhecíveis: o Barreiro é uma terra de longa tradição, conhecia pessoas que militavam, na minha rua havia gentes que tinha ido para a guerra de Espanha, voltaram, foram para o Tarrafal. E que, além do mais, eram interessantes como pessoas, tinham histórias para contar. Era difícil escapar a este ambiente. Por adesão biológica e psíquica... fui lá dar. Se eu não fosse assim, era uma "traidora"... E houve também a influência dos meus pais, sobretudo do meu pai.
P- Porque sai do PCP?
R- Por duas razões fundamentais: quando li os processos de Moscovo e quando correu a invasão da Checoslováquia, percebi aquela enorme burla em termos de democracia e de liberdade. Foi brutal e violento, porque se abateu sobre nós o peso da descoberta de um regime altamente repressivo e, sobretudo, houve a descoberta do estalinismo em toda a sua entensão. O Krutchov, no XX Congresso, tinha revelado as coisas, o PCP tinha aceite algumas- embora de uma forma superficial. Mas quando me apercebi da extensão dessa burla, saí. Por outro lado- e isto pode parecer paradoxal-, em relação à política portuguesa achava que eles tinham uma posição pouco radical. Não se colocava a questão da luta armada, quando, precisamente, nós víamos que por via democrática era impossível mudar o regime! E havia ainda a questão do socialismo como objectivo, que o PCP nunca punha, nem nunca pôs. Era sempre a revolução democrática e nacional...
P- E que era isso da luta armada? Gostava que se detivesse nesse conceito...
R- Quando se iniciou o "marcelismo", naquele grande entusiasmo em relação às eleições de 69, viu-se ali uma possibilidade de que os movimentos de massas e de base pudessem furar a barreira.
P- Esteve na CDE...
R- Estive e notei em envolvimento como talvez nunca tivesse ocorrido, mesmo depois do 25 de Abril! Havia uma coesão extraordinária entre as pessoas, muita discussão interna, etc. Mas depois das eleições, veio a grande frustração e a constatação que era impossível mudar o regime pela tal "via democrática". Colocaram-se- a vários níveis-, as questões da via armada, da luta violenta. Foi nessa perspectiva que se constituiram as Brigadas. E houve, dentro do Partido Comunista, problemas a esse respeito. Fizeram a ARA, para corresponder aos apelos das bases- embora o PCP não estivesse vocacionado para isso. Não havendo, como é óbvio, força nessas e noutras organizações, para derrubar o regime.
P- Tiveram sempre a noção que era uma utopia?
R- Tínhamos sempre a esperança de que ocorressem outras coisas que se pudessem vir a conjugar com estas. E, ao fim ao cabo, foi a força das armas que veio a derrubar o regime.
P- Qual era a articulação entre as Brigadas e o PRP?
R- Formam-se as Brigadas justamente para corresponder a esta necessidade da via armada. Tínhamos a noção, o Carlos Antunes e eu, que em Portugal se falava muito e se fazia pouco, distribuíam-se muitos papéis entre os amigos, textos muitos ideológicos, palavrosos, mas... fazia-se pouco. Decidimos que não faríamos nenhum papel. E não fizemos até à nossa primeira acção...
P- ... que foi?
R- ... a Fonte da Telha: a explosão de uma base da Nato. As Brigadas eram de facto dominantes, mas como existia um conjunto muito amplo de gente que não estava envolvida embora actuasse em diversas outras áreas, criou-se então o PRP. Entretanto, as Brigadas iam levando a cabo muitas acções armadas, foi de longe a organização que mais acções concretizou. Nunca morreu ninguém- à excepção de dois militantes, ao montarem uma bomba. Nunca houve mortes no inimigo ou nas populações. Definiu-se desde o início a regra de não matar ninguém, considerando nós que não poderíamos nunca dispor da vida humana. Aliás recordo uma discussão interessante entre o Carlos Antunes e o Nuno Bragança: o Nuno achava que a PIDE era inimigo "suficiente" para ter de ser abatido, naquela altura, o Carlos achava que não.
P- Que relações tinham, antes de Abril de 74, com outras "oposições"? Entre aquela ambiguidade que juntava todos contra o fascismo e as várias clivagens entre os diversos movimentos, como se processavam as coisas?
R- Era um mar de clivagens. Com o PC essas relações eram péssimas. Depois de sairmos de lá, se pudessem ter-nos-iam limpo da face da terra. Com os maoístas também eram péssimas, não simpatizávamos com essa corrente que considerávamos ultra-estalinista. Mas com as pessoas que vieram depois a formar o MES e com algumas das que mais tarde se integraram no PS, as relações sempre foram excelentes.
P- Por exemplo?
R- O Vitor Wengorovious, o Jorge Sampaio, o José Manuel Galvão Teles... Fazíamos reuniões com muita frequência em casa do Galvão Teles, na altura da CDE. Estávamos com esse pessoal que veio depois desaguar no MES e no PS.
P- E com os maoístas, nada?
R- Não é que fossem o inimigo... Houve algumas tentativas, o Pacheco Pereira pertencia a uma corrente dialogável, cheguei a ter um encontro clandestino com ele, no Porto, julgo que em 71. Dialogámos muito mas quanto a projectos comuns... nada!
P- Chegámos a Abril de 74 e...
R- ... para uma pessoa que está clandestina- só estive uns meses, devido a uma denúncia-, sair à rua, ver a minha filha, foi uma euforia terrível. Mas antes já suspeitávamos que vinha aí o 25 de Abril...
P- Suspeitavam ou sabiam?
R- Entre uma coisa e outra... Tivemos algumas informações lá de dentro. Foi uma euforia porque aquilo que as pessoas menos suportam é a opressão, suportarão até melhor a miséria! A explosão contra a opressão foi uma grande alegria como foi o direito à palavra. Claro que os intelectuais e as pessoas que andavam por aí, tiveram sempre um certo direito à palavra... Não nos iludamos com isso... Agora a grande massa da população, essa não dizia o que queria, nem o que sofria. Justamente o que mais me comoveu foi esse direito à palavra que se ganhou daquela forma anárquica, desorganizada! Assustadora concerteza, para as classes mais estruturadas.
P- Considerava que antes do 25 de Abril todo o país sonhava com esse direito à palavra?
R- Bem... agora há gente que aparece a dizer que não tinha a noção de que o fascismo existia... portanto, não seria o país todo... Mas é estranho, dá ideia de que nós só conhecíamos as pessoas que queriam esse e outros direitos... No entanto, julgo que a grande maioria das pessoas se sentia oprimida.
P- O que pensava que lhes era pedido, ou que se esperava de vocês, quando saíram da clandestinidade para a liberdade e para o direito à palavra?
R- Lembro-me de que o pior foi o falar em público, era uma situação totalmente nova. Foi-nos pedido um grande esforço em relação à propaganda: como era isso de fazer cartazes, faixas, organizar pessoas, grupos, tratar da segurança nas manifestações, etc etc. Éramos muito mobilizadores, mobilizávamos muita gente na rua para certas ideias!
P- Quais, por exemplo?
R- Para a constituição dos Conselhos Revolucionários que se formaram aí pelas rádios, pelas empresas. Constituímos comissões de trabalhadores, de moradores, estes conselhos estiveram sempre muito ligados a nós. Recordo-me de que, nessa altura, houve logo tentativas de unidade, estivémos sempre em contacto- embora difícil- com os trotskistas e com os maoístas, com os que vieram a dar a UDP. E sempre em ligação com o MES.
P- A partir de quando é que se tornou claro que o Otelo poderia vir a ser a vossa referência, a vossa bandeira e o vosso rosto?
R- Imediatamente. Embora ao princípio, algumas declarações dele tivessem sido contraditórias, o Otelo tornou-se muito aberto a certas formas radicais de organização popular. Desde o início protegeu as comissões de trabalhadores e de moradores. E à sua volta, no COPCON, formou-se um grupo de militares muito abertos ao diálogo connosco.
P- Essa espécie de unidade não era um risco? O risco da ilusão de achar que lograriam o vosso objectivo?
R- Até certo ponto, sim. Mas não se via outra solução nessa altura que não fosse um regime socialista para resolver os problemas económicos das pessoas...
P- Mas o que entende por regime "socialista"? O dr. Mário Soares também queria um regime socialista!
R- Queriam todos. Nessa época, todos queriam a repartição de bens e a planificação. Depois, os caminhos foram-se fazendo de formas muito diferentes, com o confronto com a realidade. Mas todos defendiam- e eu também-, que houvesse justiça ao nível da propriedade e dos lucros e que se passasse à planificação da economia. A liberdade sem isto não chegava.
P- Acreditou então na ilusão de alcançar um objectivo. Mas qual? Chegar ao poder? Intervir radicalmente na organização da sociedade de modo a alterná-la totalmente?
R- Eu pessoalmente nunca quis chegar ao poder. Mas sempre considerei que as pessoas da minha área deviam chegar.
P- Como? Se não era através de eleições...
R- Por eleições não. Pensava que poderia haver um movimento insurreccional, desarmado- embora protegido pelas armas-, de massas na rua. Aliás isso esteve à beira de acontecer.
(Cont.)
Publicado por sandra em novembro 23, 2003 02:06 PM