Continuamos a edição do depoimento de Manuel José Homem de Mello. E o tom crítico prossegue.
A PERDA DE GOA, DAMÃO E DIU
Salazar fica para que tudo continue na mesma
Salazar cogita partir para Santa Comba. Vacila, como Vassalo, mas não "se salva". E fica. Fica- porquê e para quê? Para aproveitar a oportunidade única que lhe permitia propor ao país uma nova política ultramarina, dado que se tornara inviável prosseguir no rumo inicialmente adoptado? Não. Salazar fica para que tudo continue na mesma. Salazar fica como se o caso de Goa não tivesse o tristíssimo epílogo que todos conhecemos.
Fica e manda avançar "para Angola rapidamente e em força". Os dados estavam lançados. Ao querer preservar pela metralha a tão apregoada integridade territorial portuguesa, Salazar conduzia o conflito paradoxalmente, de forma a que tivesse o resultado final que dizia pretender evitar: a perda dos territórios tornados independentes contra a presença portuguesa. Novo erro, tão ou mais grave e clamoroso que os antecedentes.
Efectivamente, a continuidade de Salazar à frente do Governo só se justificaria e até seria de aplaudir se tivesse por objectivo propor ao país uma nova política radicalmente diferente daquela que estava a ser executada, uma nova política que aceitasse como ponto fulcral o direito à autodeterminação das colónias, direito esse considerado e reconhecido como inalienável.
António de Oliveira Salazar seria, naquela emergência, como sucedera com Charles de Gaulle vis a vis à Argélia, o único português com autoridade moral e política para levantar a hipoteca do integracionismo que tolamente pretendia transformar as colónias em províncias à imagem e semelhança das Beiras, do Alentejo ou de Trás-os-Montes. É que lá eram simplesmente colónias. Aqui é que sempre foi Portugal".
(p. 50-51)
Publicado por sandra em novembro 23, 2003 10:09 PM