novembro 24, 2003

A PERDA DA ÍNDIA PORTUGUESA 5: tudo por um triz

Com este post damos por terminada a edição do depoimento de Manuel José Homem de Mello relativo à perda da Índia Portuguesa.
No ponto que hoje apresentamos, o autor referencia a intenção de Salazar abandonar o poder após a perda de Goa, as circunstância que levaram a que disso tivesse conhecimento e a posterior constatação que, afinal, o Presidente do Conselho, iria permanecer no cargo.

A PERDA DE GOA, DAMÃO E DIU

Tudo por um triz

"Desgraçadamente, Salazar não quis ou não foi capaz de seguir por essa via.
E, todavia... posso assegurar que "tudo"- ou quase tudo- esteve por um triz. Efectivamente, na noite em que se registou a invasão de Goa pelo exército indiano e a guarnição portuguesa depunha as armas (que, aliás, não chegou a utilizar...) Oliveira Salazar esteve a um passo da "abdicação".
Por extraordinária coincidência, tínhamos (minha mulher e eu próprio) convidado para um jantar de família, na referida noite, nossos tios Rosa Branca e José Luís Archer, este irmão de minha mãe e por sinal nada mais nada menos do que Secretário-Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
José Luís Archer, se bem que politicamente a favor do Estado Novo e dedicado até ao último extremo a Oliveira Salazar, não era o que costuma chamar-se um "político". Diplomata dos pés à cabeça, com uma carreira exemplar, Archer era o primeiro a reconhecer não ser mais do que (como ele dizia) a "dona de casa do Ministério". Os dossiers políticos só muito raramente lhe passavam pelas mãos. Nas Necessidades, mandava o Ministro (nessa altura Franco Nogueira) e logo depois o director dos Negócios Políticos (José Manuel Fragoso).
Atendendo, porém, à crise gerada pela invasão de Goa, nem Nogueira nem Fragoso se encontravam em Portugal. Daí que fosse Archer, naquele dia, a despachar com o Chefe do Governo.
Por volta das 19h telefonaram do gabinete a informar que "o senhor Embaixador fora chamado a S. Bento, o que pressupunha que o jantar tivesse que ficar para bem mais tarde."
A campainha tocou deveriam ser quase 10h da noite. O "carão" com que o tio José Luiz apareceu era sintomático. E como não ser, se as notícias que chegavam de Goa eram catastróficas? Tudo estava a correr o pior possível... E, num desabafo que, atendendo à desconfiança política que eu lhe "merecia", só as circunstâncias justificavam, não resistiu à tentação de confidenciar: o Doutor Salazar vai-se embora. A guarnição militar recusou bater-se. O Governador não aceitou a sugestão de se suicidar. Uma tragédia. Um autêntico finis patriae!
Procurei consolar o tio José Luiz, mas não resisti a opinar que "ou muito me enganava ou o doutor Salazar haveria de permanecer em S. Bento"..."Estás enganado, Manuel José. O homem está arrasado, trucidado e considera-se culpado de tudo o que está a acontecer!", ripostou. Ainda balbuciei mais qualquer coisa, mas o abatimento do tio era tão grande que senti não dever prosseguir o "massacre". Limitei-me a insistir na permanência de Salazar à frente do Governo.
Como se sabe, tive carradas de razão.
Após o impulso inicial (é de acreditar que tivesse chegado a pensar ir-se embora), Oliveira Salazar não tardou a concluir que era seu dever continuar... Embora tudo indicasse que deveria partir!
Mesmo historicamente, os processos de intenção merecem ser rejeitados, quanto mais não seja porque as intenções só são verdadeiramente conhecidas daqueles que as formulam... Mas neste tristíssimo caso da perda dos territórios do Indostão, parece legítimo e razoável aceitar que a continuidade da presença de Oliveira Salazar na chefia do Governo ficou a dever-se ao que poderemos apelidar de uma "espécie de cocktail" composto pela mistura de duas realidades incontornáveis do carácter e do pensamento de Salazar: o amor ao poder e a defesa do que considerava ser o mais lídimo interesse de Portugal".

(p. 51)

Publicado por sandra em novembro 24, 2003 06:38 PM
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