Na sequência do anunciado ontem, iniciamos a edição do texto de João Madeira intitulado A herança de Estaline.
No ponto hoje apresentado, o autor faz uma abordagem geral à forma como o PCP considerava Estaline à data da sua morte- Março de 1953-, o que se reflectia nos próprios comunicados elaborados. Toda esta síntese é enriquecida com a transcrição de "discursos directos".
JOSÉ ESTALINE MORREU HÁ 50 ANOS
"Em Marvila, na zona oriental de Lisboa, um dos corações operários da cidade no início dos anos cinquenta, segundo o Avante!, uma mulher teria juntado à sua porta um grupo de pessoas a quem falava de Estaline e da "gratidão que a humanidade lhe deve". O líder soviético acabara de morrer e o órgão central do PCP queria transmitir a comoção e as sentidas homenagens ocorridas nos meios populares.
Os quatro membros que compunham o clandestino Secretariado do Comité Central do PCP haviam subscrito e datado de 6 de Março de 1953, o próprio dia em que a notícia da morte do dirigente russo começa a ser conhecida pelo mundo, uma mensagem de condolências ao CC do Partido Comunista da União Soviética.
A mensagem, no tom e no estilo dos seus subscritores, "garante aos trabalhadores portugueses e aos partidos comunistas irmãos que se manterá fiel aos ensinamentos de Lenine e de Staline, que se guiará pela experiência e ensinamentos do glorioso partido de Lenine e de Staline..."
Estaline é qualificado de herdeiro e continuador genial de Marx, Engels e Lenine, de porta-bandeira da paz no mundo, de grande amigo da juventude, de construtor do socialismo, de grande arquitecto do comunismo.
Na reunião que o Comité Central realiza ainda nesse mês, Joaquim Pires Jorge faz a evocação do dirigente, considerando a sua morte como prematura e irreparável. Eleva-o à categoria de génio no plano teórico e como estratega político, chamando-lhe "gigante do pensamento e da acção".
Tarjando a negro, sairá dessa reunião um comunicado no mesmo estilo, que antes de gritar por "glória eterna", jura "manter sempre vivo dentro do partido dos trabalhadores portugueses, do Partido Comunista Português, o pensamento do camarada STALINE!".
A exorbitância, a exaltação, a adjectivação caudalosa e estridente do discurso na oratória, na propaganda ou nas próprias mensagens de condolências reflectem a deificação do dirigente, a sacralização da sua vida".
(p. 36-37. Itálico nosso.)
Publicado por sandra em novembro 24, 2003 08:18 PMEsta mensagem é para parabenizar o(s) editor(es) deste blog, e sugerir meu novo blog cas@albert.einstein.nom.br