novembro 27, 2003

A HERANÇA DE ESTALINE: PCP- uma bolchevização atrapalhada

Retomando o texto de João Madeira relativo a Estaline, apresentam-se no ponto agora editado, as características vigentes nos primeiros anos de vida do PCP- nomeadamente antes da reorganização dos anos 40-.
De facto, um conjunto de dificuldades de ordem interna impediram um caminho normalizado para a bolchevização do partido, numa aproximação a Moscovo, assim como uma afirmação inequívoca no âmbito da Internacional Comunista. Desta, aliás, acabará por ser suspenso em 1938.

JOSÉ ESTALINE MORREU HÁ 50 ANOS

"Na periferia europeia e na periferia do movimento comunista internacional, o PCP, fundado em 1921, estava ainda longe de ser um partido bolchevizado.
Mesmo depois do golpe militar de 28 de Maio de 1926, o PCP ainda não se havia conseguido libertar do heteróclito lastro sócio-político que estivera na sua origem. Sindicalistas revolucionários, socialistas, republicanos de esquerda, radicais, velhos conspiradores carbonários que se haviam reunido no partido emergente debatiam-se em tumultuosas estratégias internas de apropriação do poder partidário, a que nem a intervenção directa de um delegado da Internacional Comunista- o suiço Jules Humbert-Droz- no I Congresso, em 1923, conseguiria por termo.
A construção do partido em moldes leninistas, cuja regra de ouro, porventura mais do que a "maioria operária", correspondia à centralização, colidia quase epidermicamente com os lastros de cultura política com que esses militantes chegavam ao partido, num frémito que era um misto de radicalização e de fascínio, com muito romantismo revolucionário, pela experiência soviética triunfante de 1917.
A isso acrescia, particularmente desde os últimos tempos da república liberal, quando fermentavam as conspiratas militares e se agregava o largo espectro político para a desmantelar, que as directivas da Internacional Comunista, ao precipitarem-se na consigna de "classe contra classe", suscitavam dificuldades de operacionalização quando a fascização do país se tornava realidade.
Isto é particularmente evidente depois de 1929 e da reorganização nessa altura empreendida por Bento Gonçalves, que vai polarizando em torno de si um número de dirigentes e quadros que queriam efectivamente bolchevizar o partido, mas que procuravam como podiam, pelos primeiros anos trinta, contornar o desajustamento entre a orientação que emanava do centro e a realidade que suportavam no interior do país.
Por outro lado, nunca conseguiriam homogeneizar e enquadrar organicamente as diferentes golfadas de activistas que em radicalização acelerada se aproximavam do partido, quer fosse uma nova geração operária, mas ainda muito ligada à herança do sindicalismo revolucionário, ou gerações mais jovens que evoluíam apressadas do republicanismo de esquerda para o comunismo.
Só quando, em 1935, a nova estratégia assente no frentismo antifascista é consagrada no VII Congresso da Internacional Comunista, é que esse nó de dessintonia política se desatava.
Porém, os esforços de aplicação da linha de Moscovo a Portugal, protagonizados por Bento Gonçalves, Álvaro Cunhal, Francisco Miguel, Francisco Paula de Oliveira, Alberto Araújo, principalmente no lançamento de uma frente Popular e de uma política sindical de massas, seriam interrompidos por sucessivas flagelações policiais.
Essa precaridade orgânica casava-se com a incapacidade de construir em Portugal uma Frente Popular decente na segunda metade desse lustro, que as grandes purgas de Moscovo e da Internacional Comunista ateariam ainda mais.
Num conturbado processo, pontuado de suspeições e expulsões sem uma contrapartida de renovação forte de lideranças, o PCP acabaria em 1938 suspenso da Internacional, mantendo-se formal e organicamente desligado durante uma longa década".

(p. 38-39)

Publicado por sandra em novembro 27, 2003 10:47 AM
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