Nos passados dias 21 e 22 realizou-se na Faculdade de Letras de Lisboa o colóquio "Estaline em Portugal".
Sendo que na revista "Actual" do jornal EXPRESSO de hoje, Nair Alexandra apresenta um resumo de tal iniciativa, dele fazemos aqui a edição. Serve esta, igualmente, para complementar o conteúdo dos posts que temos aqui trazido relativos a Estaline.
OLHAR PORTUGUÊS SOBRE ESTALINE
Encontro discutiu os reflexos do estalinismo, em Portugal- sem figuras do PCP
Nair Alexandra
"Foi com algumas revelações, um olhar muito crítico sobre a história do Partido Comunista Português (PCP) e a influência do estalinismo no nosso país que decorreu o colóquio "Estaline em Portugal", na Faculdade de Letras de Lisboa a 21 e 22 deste mês. E foi também a propósito não só da passagem (em Março deste ano) do meio século sobre a morte do dirigente soviético mas também a propósito do 90º aniversário de Álvaro Cunhal.
E a introdução ao encontro, por João Medina, seria logo contundente: retomando uma expressão de Eduardo Lourenço, o historiador define o PCP e o salazarismo como dois "cães de faiança". A seu ver, a dicotomia entre estes dois únicos antagonismos teve um papel paralisante na vida política, cultural e intelectual portuguesa e "constituiu uma das tragédias da nossa situação histórica no século XX". Para dar um exemplo de como o ambiente de secretismo que se vivia nos meios culturais portugueses perdurou para lá do 25 de Abril, Rui Mário Gonçalves contou uma história curiosa. Foi em Setembro de 1976, em plena Praça Vermelha, Moscovo, que Mário Dionísio soube que António Vale, autor de textos polémicos sobre as artes nos anos 50, era o pseudónimo de Álvaro Cunhal. "Ele ficou espantado!", recordou.
Curiosamente, Pacheco Pereira defenderia que, ao contrário do que sucedeu noutros movimentos comunistas europeus, "há muito poucas referências a Estaline no cânone português". O momento de excepção terá sido o da morte do ditador russo, em Março de 1953, a pretexto do qual o PCP manifestou uma atitude de alinhamento com o culto da personalidade.
Outras intervenções abordaram os conflitos entre os movimentos de extrema-esquerda e o Partido Comunista da União Soviética (PCUS), as posições de uns e de outros face a Estaline, ou o novelo emaranhado dos partidos e forças em Portugal que reflectiram essas lutas. Fernando Rosas referiu, ainda, a existência de estalinismos de direita e de esquerda, num encontro pautado pela ausência de personalidades ligadas ao PCP- o único previsto, Alberto Vilaça, não pôde comparecer por razões de saúde, e o seu texto foi lido no colóquio.
Falou-se, ainda, nas mudanças operadas dentro do partido nos anos 40 e na influência do estalinismo nas tendências estéticas que atravessaram Portugal no século XX, através do neo-realismo. E este foi o pretexto para se referirem pormenores interessantes: de acordo com António Pedro Pita, a expressão "neo-realismo" aparece pela primeira vez, em Portugal, num texto do poeta Joaquim Namorado, no contexto de um debate teórico sobre a articulação entre neo-realismo e o realismo socialista. Aquele especialista referiu, ainda, como textos de Estaline foram publicados nas revistas "Sol Nascente" (Maio e Novembro, 1939) e "Síntese" (1940), sob os pseudónimos de Gabriel Coutinho e José Vasco Salinas".
("Actual"- EXPRESSO, p. 10)
Publicado por sandra em novembro 29, 2003 10:33 AM